domingo, 5 de julho de 2026

Ronaldo Correia de Brito lendo Borges

 

Borges no Entre Livros:



A linguagem sertã

 


Retomando o blog com um comentário sobre a minha leitura de "Faca e Livro dos homens" de Ronaldo Correia de Brito, um autor de que gosto muito por sua forma de narrar mais polifônica e, ao mesmo tempo, exata  e precisa. Gosto dele também pelos retratos humanos que constrói e por um sabor de fundo rosiano, bem ambientado na secura da terra que exige muito de quem lá vive. São histórias que, para além do humano, tocam numa metafísica diária que, muitas vezes, nos tiram do lugar do demasiado humano. Segue, nesse sentido, também uma linha cabralina. 

Juiz de Fora, 05/07/2026

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Hinos Órficos

Hino ao Sol

Ouve-me, venturoso, onividente de olhos eternos,
Titã de áureo cintilar,Hipérion, luz celeste,
incansável gerado por si mesmo, doce visão aos vivos,
à esquerda engendraste a Aurora, à direita a Noite,
tempera as Estações [Horas] dançando com tuas quadrigas; (5)
corredor, silvante, flâmeo de fúlgidos olhos, condutor do carro,
guiando entre rugentes turbilhões sem fim
aos pios leva o bem e aos ímpios, a cólera;
de áurea lira, detém o curso harmonioso do cosmo,
é quem aponta atos de valor, é o jovem que nutre as Horas; (10)
imperador do cosmo, chilreante, correndo como fogo, circunvolvente,
Lucífero, de aparência vária, vital, frutuoso Peã,
viçoso sempre, límpido, pai do Tempo [Khronos], Zeus imortal,
claro, luz de todos,  olho circundante do cosmo,
a se extinguir e a brilhar em luzentes lindos raios. (15)
Exemplo de justiça [Dikaiosyne], amigo das águas, senhor do cosmo,
guardião da lealdade, sempre supremo, auxiliador de todos,
olho da justiça [Dikaiosyne], luz da vida; ó cavaleiro,
com estridente açoite impelindo a tua quadriga,
ouve minhas palavras, e mostra a doce vida aos iniciados.  (20)

[Tradução: Rafael Brunhara]


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Clariceando na madrugada insone

Deixo aqui três textos de Clarice q me assaltaram na insônia desta última madrugada. Fazem parte do livro A Descoberta do Mundo. 
A Festa do Termômetro Quebrado

Sempre foi e será uma festa para mim quando se quebra em casa um termômetro e liberta-se a gota gorda e contida de mercúrio prateado, ali no chão, dando uma pequena corrida e depois imobilizando-se, imune. Tento pega-lo com cuidado, auxiliada pela agudez de uma folha de papel que passa deslizadoramente por baixo dela. Ou dele, o mercúrio. Que não se pode pegar: no momento em que eu penso que o peguei ele se estilhaça mudo nos meus dedos como mudos fogos de artifício, como o que dizem que nos acontece depois da morte ─ o espírito vivo se espalha em energia solta, pelo ar, pelo cosmo. Que impossibilidade de capturar a gota sensível. Ela simplesmente não deixa e guarda a sua integridade, mesmo quando repartida em inúmeras bolinhas esparsas: mas cada bolinha e um ser a parte, integro, separado. Basta porem que eu alcance ligeiramente uma delas e ela e atraída velozmente pela que esta próxima e forma um conjunto mais cheio, mais redondo. Sonho tanto hoje que quebrei um termômetro como em criança, sonho em milhares de termômetros quebrados e muito mercúrio denso e lunar e frio se espalhando. E eu a brincar, toda seria e concentrada em alto grau, a brincar com a matéria viva de uma enorme quantidade do metal de prata. Imagino-me a mergulhar como num banho nesse vasto mercúrio que imagino saído dos termômetros: ao mergulhar milhares de bolas se soltariam, cada uma por si mesma, grossas, impassíveis. O mercúrio é uma substância isenta. Isenta de que? Nada explico, recuso-me a explicar, recuso-me a ser discursiva: e isento e basta. Parece possuir um frio cérebro que comanda as suas reações. Sinto-me em relação a ele como se eu o amasse e ele nada sentisse por mim, nem sequer uma obediência de objeto. O mercúrio e um objeto que tem vida própria. Lidar com ele e uma experiência não substituível por outra qualquer. Ele não se cede a ninguém. E ninguém consegue por-lhe a mão. O espírito, através do corpo como meio, não se deixa contaminar pela vida, e esse pequeno e faiscante núcleo e o ultimo reduto do ser humano. As feras também possuem esse núcleo irradiante, tanto que elas se conservam íntegras, indomesticáveis e vitais.
Noto que passei do mercúrio ao mistério das feras. E que o mercúrio ─ que constitui matéria lunar ─ faz meditar, leva-me, de uma verdade a outra, ate o núcleo de pureza e integridade que esta em cada um de nos. Quem? Quem não brincou com o termômetro quebrado? CL

Clariceando na madrugada insone

A Rosa Branca
Corola alta: que extrema superfície. Catedral de vidro superfície da superfície, inatingível. Pelo teu talo duas vozes à terceira e à quinta e à nona se unem em coral - crianças sáias abrem bocas de manhã e entoam espírito, leve superfície de espírito, superfície intocável de uma rosa.
Estendo minha mão esquerda que é mais fraca e delicada, mão escura que logo recolho sorrindo de pudor: não te poso tocar. Meu rude pensamento quisera poder cantar teu entendimento de elo e glória.
Tento liberar-me da memória, entender-te como te vê a aurora, como te vê uma cadeira, como te vê outra flor. (Não temas, não quero possuir-te.)
Alço-me, alço-me em direção de tua superfície que já é perfume. Alço-me até atingir minha própria tona, minha própria aparência  - empalideço nessa região assustada e fina, quase alcanço tua superfície divina... Numa queda ridícula caí.
Não abaixo minha cabeça rosnante: quero ao menos sofrer tua vitória com o sofrimento angélico de tua harmonia, de tua alegria. Mas dó-me o coração grosseiro como em amor por um homem. E das mãos tão grandes saem as palavras envergonhadas. CL

Clariceando na madrugada insone


Clariceando na madruga insone

A Mágoa Mortal
          Os telhados sujos a sobrevoar, arrastas no vôo a asa partida. Acima da igreja as ondas do sino te rejeitam ofegante até a areia da praia. O abraço consolador não podes mais suportar pois amor estreita asa doente. Sais gritando pelos ares em horror, sangue escoa pelos telhados. Foge. foge para o espanto da solidão, pousa na rocha, estende o ser ferido que em teu corpo se aninhou: tua asa mais inocente foi atingida. Mas a cidade te fascina. Insistes lúgrebe em brancura carregando o que se tornou o mais precioso: a dor. Voas sobre os tetos em ronda de urubus. A asa pesa pálida na noite descida em pálido pavor. Sobrevoas persistente a cidade fortificada e escurecida — capela, ponte, cemitério, loja fechada, parque morto, floresta adormecida, folha de jornal voa em rua esquecida. Que silêncio na torre quadrada. Espreitas a fortaleza inalcançável. Não, não desças, não finjas que não dói mais — é inútil negar asa partida. Arcanjo abatido, não tens onde pousar. Foge, assombro, foge, ainda é tempo — desdobra com esforço a asa confrangida. Foge, dá à ferida a sua verdadeira medida e mergulha tua asa no mar. C.L.