Nestes compartimentos escuros onde passo
dias opressivos, ando para cá e para lá
a fim de achar as janelas - Quando se abrir
uma janela, será um consolo. -
Mas não se acham as janelas, ou não posso
encontrá-las. e talvez seja melhor que não as encontre.
Talvez seja a luz um novo martírio.
Quam sabe que novas coisas ela mostrará.
sábado, 11 de dezembro de 2010
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
WikiLeaks - o preço da liberdade de informação
Leia no link abaixo o texto de Bráulio Tavares em defesa do WikiLeaks. Espero que finalmente entendam o que significa a expressão 'big brother'. Ou como dizia o Raul: falta cultura pra cuspir na estrutura. http://mundofantasmo.blogspot.com/2010/12/2423-wikileaks-e-os-little-brothers.html
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
O repentista Bob Dylan
Toda criação poética é uma oscilação contínua entre o racional e o intuitivo, entre decisões planejadas e coisas que parecem cair do céu. “Toda”, no caso, é um exagero, porque se há milhões de poetas há milhões de poéticas; mas essa regra, que vale para mim, deve valer pra mais gente. Lembrem aquela famosa cena de Sociedade dos Poetas Mortos, em que um dos alunos de Robin Williams diz ser incapaz de escrever versos. Ele manda o garoto ficar de pé e fechar os olhos, manda-o girar sobre si mesmo e ficar dizendo o que lhe vem na cabeça, até que o garoto, que era o mais travado da turma, começa a balbuciar coisas e acaba gritando uns versos bem aceitáveis. Ela larga o garoto e diz no seu ouvido: “Nunca se esqueça disto”.
Nunca se esqueça de quê? De que a poesia não é necessariamente uma atividade de concatenação entre conceitos abstratos, como o raciocínio filosófico. Ela pode ser, e frequentemente é, uma justaposição de imagens concretas e contraditórias. A arte está em juntar as duas coisas. Em seu livro Positively 4th. Street, David Hajdu descreve como Bob Dylan compôs muitas das canções de seu primeiro disco genuinamente folk-rock, Bringin’ it all back home. Diz Hajdu, citando uma testemunha:
“Ele espalhava dúzia de fotografias arrancadas de jornais e revistas, arrumando-as no chão, e sentava entre elas com o violão. Começava com uma levada musical simples, um acompanhamento de blues que ele pudesse repetir indefinidamente, e então fechava os olhos. Não copiava as coisas literalmente das fotos, mas usava a impressão deixada por elas como um modelo visual para produzir uma linguagem caleidoscópica. Parecia estar cantarolando qualquer coisa que lhe vinha à cabeça, frases desconexas mas com sentimento poético. Quando surgia algo que lhe agradava, ele rabiscava aquilo às pressas, para não perder o clima, e fazia isso até ter versos suficientes para uma canção”.
Parece maluquice, mas cada um de nós tem métodos semelhantes. Um dos meus preferidos é ficar rasqueando o violão, cantarolando uma melodia sem letra, escolher um objeto qualquer no ambiente e procurar palavras que rimem com ele. Num instante a letra começa a aparecer. O método de Dylan (e o de Robin Williams) nos lembra que o motor da poesia é o intelecto, mas o combustível é a emoção. Um, sem o outro, não funciona. O intelecto é capaz de ficar uma tarde inteira parado, ponderando um adjetivo, mas quem escreve sabe que precisa botar o motor em movimento. Para isso, uns recorrem ao violão, outros ao uísque, outros a um baseado, outros a uma vida cotidiana insone e caótica que os deixa 24 horas por dia num estado alterado de consciência. Os surrealistas praticavam a escrita automática. Tudo é válido para “passar primeira” e tirar o cérebro da imobilidade. A grande criação literária (para muitos, claro, nada disso se aplica a todo mundo) ocorre na terceira marcha. O problema é chegar lá.
Nunca se esqueça de quê? De que a poesia não é necessariamente uma atividade de concatenação entre conceitos abstratos, como o raciocínio filosófico. Ela pode ser, e frequentemente é, uma justaposição de imagens concretas e contraditórias. A arte está em juntar as duas coisas. Em seu livro Positively 4th. Street, David Hajdu descreve como Bob Dylan compôs muitas das canções de seu primeiro disco genuinamente folk-rock, Bringin’ it all back home. Diz Hajdu, citando uma testemunha:
“Ele espalhava dúzia de fotografias arrancadas de jornais e revistas, arrumando-as no chão, e sentava entre elas com o violão. Começava com uma levada musical simples, um acompanhamento de blues que ele pudesse repetir indefinidamente, e então fechava os olhos. Não copiava as coisas literalmente das fotos, mas usava a impressão deixada por elas como um modelo visual para produzir uma linguagem caleidoscópica. Parecia estar cantarolando qualquer coisa que lhe vinha à cabeça, frases desconexas mas com sentimento poético. Quando surgia algo que lhe agradava, ele rabiscava aquilo às pressas, para não perder o clima, e fazia isso até ter versos suficientes para uma canção”.
Parece maluquice, mas cada um de nós tem métodos semelhantes. Um dos meus preferidos é ficar rasqueando o violão, cantarolando uma melodia sem letra, escolher um objeto qualquer no ambiente e procurar palavras que rimem com ele. Num instante a letra começa a aparecer. O método de Dylan (e o de Robin Williams) nos lembra que o motor da poesia é o intelecto, mas o combustível é a emoção. Um, sem o outro, não funciona. O intelecto é capaz de ficar uma tarde inteira parado, ponderando um adjetivo, mas quem escreve sabe que precisa botar o motor em movimento. Para isso, uns recorrem ao violão, outros ao uísque, outros a um baseado, outros a uma vida cotidiana insone e caótica que os deixa 24 horas por dia num estado alterado de consciência. Os surrealistas praticavam a escrita automática. Tudo é válido para “passar primeira” e tirar o cérebro da imobilidade. A grande criação literária (para muitos, claro, nada disso se aplica a todo mundo) ocorre na terceira marcha. O problema é chegar lá.
sábado, 4 de dezembro de 2010
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
noite de primavera
no início da noite caiu uma chuva forte
minha irmã chegou em casa encharcada
mas isso poderia ser só uma crônica de primavera
não fosse o silêncio que se instalou depois da chuva
e a brisa fresca, meio fria,
assim deixando minha pele viva e indolente
e então a insônia veio
e com eles
o meu silêncio povoado de silêncios antigos
a noite ficou enorme
uma latinha de cerveja
não foi páreo pra derrubar tudo que flutuava
no rio q sou
o vento me beijava a pele
a janela me abria pra um mundo lavado
e puro
beijei o céu e o espaço circundante
beijei aquele silêncio q me deixava ser o que sou
sem pressa e sem necessidade de respostas
eu me lembrei de caetano
porque fiz essa canção
na esperança de q a manhã nascesse azul
na esperança de q amanhã eu nasça azul
minha irmã chegou em casa encharcada
mas isso poderia ser só uma crônica de primavera
não fosse o silêncio que se instalou depois da chuva
e a brisa fresca, meio fria,
assim deixando minha pele viva e indolente
e então a insônia veio
e com eles
o meu silêncio povoado de silêncios antigos
a noite ficou enorme
uma latinha de cerveja
não foi páreo pra derrubar tudo que flutuava
no rio q sou
o vento me beijava a pele
a janela me abria pra um mundo lavado
e puro
beijei o céu e o espaço circundante
beijei aquele silêncio q me deixava ser o que sou
sem pressa e sem necessidade de respostas
eu me lembrei de caetano
porque fiz essa canção
na esperança de q a manhã nascesse azul
na esperança de q amanhã eu nasça azul
Fernanda Meireles, 02.12.2010
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