sábado, 5 de abril de 2014

(sem título)

        Faz uns dias q eu ando assim... longe do mundo. E agora, como um raio, me caiu a percepção de que esse tipo estado me foi sendo construído ao longo do tempo, na sucessão de caminhos dessa minha estada aqui. E aí eu percebo q esse planar me traz algumas coisas q só hj, só nesse momento compreendo. Hj percebo como sou difícil de ser capturada, embora queira absurdamente sê-lo. Queria um vínculo assim  q me prendesse a um estado, a uma situação, a algo q me fizesse querer descer pra descansar as asas. Sinto-me, absurdamente, como um navio a deriva no alto-mar e isso não me assusta, não me alegra, é algo q eu sou, apenas isso. Pra mim tanto faz. E não é pra isso q se está por aqui.
      Então me surge essa sede... Sedento ser em vôo, cansado de céu... mas sem nada que o prenda em gozo ao chão. E eu aqui escutando Rolling Stones, desejando algo que me bata na veia, numa overdose de vida que me liberte de mim mesma.
      É... essa sede foi se acumulando e me deixando cada vez mais longe de tudo que é meia medida, com cansaço de tudo q é bom senso. Td por um terremoto q me tire a solidez, td por um vento ensandecido q me bloqueie as asas. Conheci alguém q disse q queria morrer com um meteoro,  um cometa, algo assim lhe explodindo no meio do peito. Eu não quero morrer assim, eu quero viver assim. Onde há vida nesse mundo?
                                                                               Fernanda Meireles, 05/04/2014

Pra fechar, um rolling stones: https://www.youtube.com/watch?v=B51A6bcMeDY


domingo, 23 de março de 2014

Legião e Raul - os meus começos, meus tropeços, meus preços.

            E aí um dia vc percebe q não está preparada para a estrada em linha reta, pois, o tempo todo, vc foi metal contra as nuvens. Vc percebe que seu ser pede sangue, seu pp sangue. Sereníssima, vc conseguiu o equilíbrio cortejando a insanidade. Mas há tanta saudade dessa insanidade, abismos em espaço-tempo, ancorados no infinito. E aquela saudade imensa de algo q vc ainda não viveu continua ali, mesmo q escondida por muros de racionalidade. E esses muros têm de cair, precisam virar escombros pq só a partir deles sua natureza fenix se manifesta. Uma necessidade absurda da escuridão que alimenta a posterior aurora na qual seu pp sorriso se plenifica, grande deusa batizada em sangue. Ter sede de abismos e não encontrá-los pq o mundo e a vida teimam em andar em linha reta. A terra rompendo-se sob seus pés e seu corpo solto no espaço; um parto, o parto de mim mesma, envolta em sangue e o vagido da criança em sua primeira inspiração, isso é o q ando pedindo à Grande Origem de tudo. Não admito que tenha ganhos todas as batalhas, há de haver outras maiores em que eu me lançar e nas quais apostar minha alma pq o medo de perder eu não tenho, pq, eu posso até perder, mas isso, absolutamente, faz parte do jogo. É nesse grande jogo cósmico que habito de forma mais plena. Quando vc se habitua a ser  queimada em fogo, nada q seja meio termo te realiza. A consumação de td, esse é seu único e grande pedido final.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Texto sem data

                Hoje foi um dia de silêncio e trabalho. Passei o dia em meio a papéis, recibos velhos e novos, revi antigas anotações e repassei a agenda usada, mesmo q de forma bastante descontínua, no ano passado. Então, me deparei com dois textos meus sem datação. Um talvez seja de janeiro de 2013, mas o outro não sei de quando é. É esse segundo texto q trago aqui para o blog. Vamos a ele:

“Mais uma vez acordo por volta das três e trinta da madrugada. Há um silêncio absoluto em tudo à minha volta. Árvores, animais, noite... nenhuma folha se move, não há canto de coruja alguma. Apenas eu, tb, em silêncio, olho as estrelas caladas num céu aberto e de profundo azul.
Acima da minha casa, bem acima, está o Cruzeiro do Sul, parecendo traduzir q naquele silêncio e naquela imobilidade absurdos, mesmo neles, há uma direção, há uma indicação de rotas para navegantes de mares de diversa essência.
Dentro de mim, há tb um silêncio tumultuado de coisas descabidas, inacabadas, mal começadas, silenciadas. Sento-me à beira de mim para conversar com elas. São tristes, tortas e feias, são violentas, são más. São, principalmente, eu mesma.
E eu? O q sou?
Nessa esquina desse pensar obtuso, deparo-me com aquela q considero umas das principais marcas de FPessoa em mim. O texto, através do qual, fui apresentada ao mar português q é Pessoa, um oceano profundo, vasto, às vezes calmo, às vezes violento. Para mim, a maior violência de Pessoa é a sua suprema lucidez, jogada, assim, de chofre na tua cara, com duas, três palavras.
O texto de q falo é a carta em q Álvaro de Campos narra o dia em que conheceu aquele q passaria a chamar de mestre, Caeiro. E Álvaro lhe pergunta se o mestre estava contente consigo. Ao q Caeiro responde: “Não: estou contente”.
Esta resposta assim, curta e simples, se alojou como um disparo certeiro no centro de tudo que eu era então. 22 anos eu tinha. Ela andou uma semana comigo, pesando meu ser. E então, um dia, ela me caiu ao colo como um maço de flores, como uma estrela que se espalha em luz pelo nada, como uma criança q ri inteira. E eu a compreendi com a lógica da alma q é maior q qualquer linguagem humana. Eu a compreendi com o silêncio.
Desde então, ela anda comigo transformada. Doce brisa, violenta certeza.
Desde então, eu tento apenas ser.  Tarefa inglória no mundo das manifestações que te quer tb manifestado, que te pergunta diariamente, na maioria das vezes em silêncio, só com os olhos, quem tu és.
E eu aqui sentada à beira de mim, habitando o silêncio e a noite, quero apenas me calar, cansada desse existir multidiverso. Quero esgotar tudo, até não sobrar nada, até que a própria resposta de Caeiro se dissolva como nuvem no céu noturno, ele mesmo ausente de qualquer brilho, ausente até de si.
Nada... nada... coisa alguma tem importância...
O que é o amarelo?
O que é uma flor à beira do rio?
O que sou eu à beira de mim?
Nada... nada.. coisa alguma tem importância. ” 
                                                                               Fernanda Meireles
                                           
                                       

                                             

domingo, 12 de janeiro de 2014

+Pessoa, pq, para alguns, a noite desce mais forte.

 Para aqueles a quem o abraço dos deuses cobra seu preço, principalmente em noites em que vai alta a lua e vai forte a dor, dois poemas de Fernando Pessoa, na voz do heterônimo Alexander Search:

"Por vezes, no meio da vida, subitamente
Surge uma mudança como uma aberração,
Um senso de vazio, enorme e diferente,
E uma vaga e profunda desolação.
Uma sensação de ser deixado só
E mais que abandono é o seu sentido
(...)
É uma sensação de quase ter morrido.
Morto e consciente, é estranho dizer.
Uma vertigem da própria razão,
Uma agonia vaga e definida
De algo sufocado em aflição."

 ......................

"Febo há muito desceu no Ocidente
Por trás dos montes de rosa tingidos;
Eu, sofrendo, cerro os olhos doridos
Olhando o mundo que ante mim se estende.
Pois pela noite o rio silente desce,
Oculto no escuro já voa o morcego;
Mas, nocturna, a alma não tem sossego,
É na escuridão que meu horror cresce.
Odeio a noite que a mim se assemelha,
Só que em mim, nem astro ou centelha
Dispersa as nuvens da alma e da mente.
Mas como a noite em seu manto sombrio,
Calado e escondido me quedo no frio,
Envolto em dúvidas e delas temente."




Gosto muito dessa foto de Pessoa. O olhar divisa abismos pelos quais é necessário se lançar e, solitário, o ser precisa se recriar. Para alguns, a noite é sempre maior.
Fernanda Meireles, 12/01/2014


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Qqr coisa

Final de tarde de verão
Vontade rabiscar qqr coisa
Que brilhe assim
Entre um poente
E uma pequena estrela
Q surge tímida do outro lado do azul.
Escutando three ways,
Por onde vão meus olhos
Nessa divisa regida por Anúbis?
Escrever qqr coisa entre fresca e cálida,
Qqr coisa em q caiba
Um leve disparar do coração,
Qqr coisa q eleve
Mais alto
O vôo do meu ser.
Escrever qqr coisa
Q seja mar,
Floresta,
Céus.
Tudo se desmanchando
No fluir.
Tudo escorrendo,
areia no deserto
do Sem-fim.
Qqr coisa
Q faça iluminar seu rosto.
           Fernanda Meireles, 06/01/2014

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

As urtigas de Tanizaki e os poetas de Jakobson


               
             Nesses dois últimos dias, quase em férias, consegui parar para ler um pouco, na tarefa sisífica de aliviar uma lista imensa de títulos q me acompanha. 

            Seguindo à leitura de Saigyo, fui até Tanizaki, de quem li "Há quem prefira urtigas", breve romance que retrata a ocidentalização do Japão nos anos 20 e os confrontos com a tradição cultural através da história de um jovem casal dividido entre essas duas culturas. São duas formas de viver, de pensar e de amar que os arrastam, enredando-os em questionamentos sobre si mesmos.
              Em seguida, tomei como leitura de hoje o ensaio iluminado de Roman Jakobson "A geração que esbanjou seus poetas", produzido quando do suicídio de Maiakóvski. No texto, Jakobson mostra que a morte do poeta, na verdade, era a queda de uma geração russa inteira, silenciada pelos rigores que a recente "revolução" soviética tomava. Deixo com vcs, o conhecido poema Sol de Maiakóvski, na transcriação de Augusto de Campos, e o link com outro poema, Amor, musicado por Caetano e cantado por Gal.