quarta-feira, 22 de setembro de 2010

UM VELHO

No interior do café ruidoso,
inclinado sobre a mesa, está sentado um velho;
com um jornal à sua frente, sem companhia.

E no menosprezo da velhice miserável
pensa quão pouco fruiu dos anos
em que tinha a força, o verbo e a beleza.

Sabe que envelheceu muito; sente-o, observa-o.
E entretanto o tempo em que era jovem se lhe afigura
como ontem. Que breve espaço, que breve espaço!

E medita como a Prudência o enganava;
e como sempre confiava nela - que loucura! -
a mentirosa que dizia: "Amanhã. Tens muito tempo."

Lembra-se dos ímpetos que reprimia; e quanta
alegria sacrificava. Cada oportunidade perdida
zomba agora de sua prudência insensata.

...Mas por muito pensar e recordar,
o velho atordoou-se. E adormece,
apoiado na mesa do café.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

MURALHAS

Sem consideração, sem piedade, sem pudor,
grandes e altas muralhas em torno de mim construíram.

E agora estou aqui e me desespero.
Outra coisa não penso: este destino devora meu espírito;

porque muitas coisas lá fora eu tinha que fazer.
Ah! quando construíam as muralhas, como não dei atenção?

Entretanto, jamais ouvi batidas ou rumores de pedreiros.
Imperceptivelmente, encerraram-me fora do mundo.

versão final da capa

domingo, 19 de setembro de 2010

o gato preto em animação

http://www.youtube.com/watch?v=po_T90CthjI&feature=related

poe no entrelinhas

http://www.youtube.com/watch?v=SnX8t4BTjlw

Crônicas marcianas quase terráqueas

Um livro que fala muito mais sobre nós e nosso medo do conhecimento, medo do desconhecido, do que de marcianos hollywoodianos e apocalípticos. Um livro que fala sobre nossa ambição desmedida e sobre nosso anseio neurótico obsessivo por dominar. Um livro que fala sobre nossa capacidade de destruir civilizações e  ambientes naturais. E tudo porque quase sempre optamos pela mediocridade, por sermos medianos, por não tentar ser maior e ver mais longe. Um livro que fala de um futuro que é o nosso agora, num planeta Marte metáfora de um planeta Terra de amanhã.
Fernanda Meireles, 19.09.2010

Bradbury faz 90 anos

O livre conhecimento dos livros

LÁ FORA, AS SIRENES tocam com estardalhaço. Dentro, os espectadores se perguntam se o barulho faz parte do evento. Afinal, aguardamos o início de "Fahrenheit 451", um filme sobre bombeiros -não aqueles que apagam fogo, mas os que incendeiam livros.
Mas as sirenes são apenas uma coincidência que marca a entrada de Ray Bradbury, o paladino das bibliotecas agonizantes e autor do livro homônimo no qual François Truffaut baseou seu longa-metragem de 1966.
Bradbury entra na sala e atravessa o corredor ignorando aplausos e flashes, o olhar petrificado por trás dos óculos de lentes grossas, enquanto desliza numa cadeira de rodas até o palco.
O autor de "O Homem Ilustrado" e "As Crônicas Marcianas" era o convidado da noite, na sede do Sindicato dos Roteiristas, em Los Angeles, no mês passado.
O escritor completou 90 anos em 22 de agosto e a prefeitura resolveu homenageá-lo criando oficialmente a Semana Ray Bradbury, com uma programação de eventos, peças de teatro e tardes de autógrafos.
Para falar com o público antes da exibição de "Fahrenheit 451", Bradbury precisou que segurassem o microfone para ele. Na cadeira de rodas desde que sofreu um infarto, há mais de dez anos, o autor é uma figura frágil, mas não lhe faltam palavras afiadas e bom humor.
"Mel Gibson está muito ocupado com sua garota russa", disse Bradbury, referindo-se às polêmicas do ator com sua ex-mulher. Há mais de uma década, Gibson comprou os direitos de produzir o remake de "Fahrenheit 451". O contrato vence em 2011 e não há sinais de que o filme saia até lá.
Bradbury segue escrevendo vigorosamente. "Acordo todo dia e explodo", conta, e dá risada: "Vomito pela manhã e limpo pela tarde". Ele diz que, de sua casa em L.A., costuma ditar histórias pelo telefone para a filha, que mora no Arizona. Até o final do ano, lança o livro de contos "Juggernaut".
Durante o evento, o escritor reafirma sua paixão pelas bibliotecas. Foi numa sala de estudos de uma delas, a Powell Library da Universidade da Califórnia, que escreveu "Fahrenheit 451", há quase 60 anos, com uma máquina de escrever alugada na biblioteca.
O autor lembra que, sem dinheiro para fazer faculdade na época da Grande Depressão, impôs-se a disciplina de frequentar bibliotecas pelo menos três vezes por semana, durante dez anos.
Nos últimos anos, Bradbury visitou cerca de 200 bibliotecas californianas, em campanhas de arrecadação para evitar o fechamento de muitas delas, ameaçadas pelos drásticos cortes orçamentários do Estado.
"Bibliotecas são mais importantes do que universidades. Bibliotecas são livres. E o conhecimento deve ser livre."
Hoje (19/9), o autor dará autógrafos numa convenção de HQs em L.A. Mais de 20 obras suas foram transpostas para o universo dos quadrinhos na última década.

FERNANDA EZABELLA , Folha de São Paulo, 19.09.2010