segunda-feira, 23 de abril de 2012

Memórias de menina cantadas no Boitempo

DOIDO
O doido passeia
pela cidade sua loucura mansa.
É reconhecido seu direito
à loucura. Sua profissão.
Entra e come onde quer. Há níqueis
reservados para ele em toda casa.
Torna-se o doido municipal,
respeitável como o juiz, o coletor,
os negociantes, o vigário.
O doido é sagrado. Mas se endoida
de jogar pedra, vai preso no cubículo
mais tétrico e lodoso da cadeia.

sábado, 21 de abril de 2012

Eu hoje


Ainda sobre a hipocrisia e a educação


Polêmica ou ignorância?

Discussão sobre livro didático só revela ignorância da grande imprensa

Marcos Bagno Universidade de Brasília
Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.
Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).
Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.
Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana. Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro, com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.
Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro doconjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.
A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai. Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).
Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.
Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assisti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).
O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em que a defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?
 Fonte:  http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=745

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Poesia e emoção

          O palavrão é a mais espontânea forma de poesia. Brota do fundo d'alma e maravilhosamente ritmada. Se isto indigna o leitor e ele solta sem querer uma daquelas, veja o belo verso que lhe saiu, com as características do próprio: ritmo e emoção __ sem o que, meu caro senhor, não há poesia. Escute, não perca discussão de rua, especialmente entre comadres italianas, e se verá então em plena poesia dramática de empalidecer de inveja o maravilhoso e refinado Racine, mas não o bárbaro Shakespeare, igualmente mravilhoso, embora destrambelhado de boca.
       Por isso é que não nos toca a poesia feita a frio, de fora para dentro, mas a que surge do coração como um grito, seja de amor, de dor, de ódio, espanto ou encantamento.

sábado, 14 de abril de 2012

A sociedade brasileira, a educação e a hipocrisia.

Eu tinha prometido que não ia dar asas a esse absurdo, mas não consigo ficar calada. Sou professora há anos da Escola Municipal Cecília Meireles, aqui de Juiz de Fora. Uma escola reconhecida pela excelência de seu trabalho, com premiações diversas, inclusive premiação internacional.
Uma escola que tem passado com excelência pelas avaliações propostas pela politica nacional de educação, com alto d
esempenho no ideb, por exemplo (deixando de lado aqui minhas reservas quanto a modelos e objetivos dessas avaliações) .
Uma escola em que a leitura e a literatura fazem parte do cotidiano dos alunos. Meus alunos do sexto ano lêem Julio Verne, João Ubaldo Ribeiro, Victor Hugo, Drummond, Quintana, Leminski...
Uma escola com uma biblioteca funcionando e que faz inveja a muitas escolas particulares.
E hoje nosso trabalho foi totalmente desconsiderado numa reportagem tendenciosa que não buscou saber da contextualização do trabalho motivador da notícia.
Na nossa escola trabalhamos com gêneros literários diversos, dentre eles a crônica, a qual tem como uma de suas características principais a ficcionalização da realidiade, o discurso próximo da coloquialidade, num misto de jornalismo e ficcção. Um gênero em que a linguagem deve ser uma das marcas do fato, da cena em narração.
E quando efetivamente nossos alunos produzem crônicas, e não textos artificiais, é isso que recebemos?
Trabalhamos com o acervo que o próprio governo nos manda e, portanto, em nossas estantes, graças a Deus, temos o melhor da literatura brasileira e os grandes clássicos. Nas nossas estantes temos Rubem Fonseca.
E quando abrimos espaço para discutir, através de normas e variações linguísticas, o processo de violência simbólica que perpassa as relações humanas na contemporaneidade, somos assim tratados?
Nós não nos negamos a mostar os textos, tanto que a reportagem os filmou.
Tenho tanta tranquilidade com meu trabalho nessa escola que quando entrei em sala hoje à tarde e fui conversar com os alunos sobre a reportagem, as palavras que mais ouvi deles foram audiência e covardia.
Essas palavras só me provam que o nosso trabalho está no caminho certo.
Eles estão sabendo assitir à TV e entender a palavra manipulação.
Que nós professores continuemos assim.
A propósito, no vídeo exibido pela net, não vi a defesa da diretora e do professor. Por quê
?
megaminas.globo.com

Fernanda Meireles  14/02/2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

+Pessoa

Depus a máscara e vi-me ao espelho… 
Era a criança de há quantos anos. 
Não tinha mudado nada... 
   
É essa a vantagem de saber tirar a máscara. 
É-se sempre a criança, 
O passado que foi 
A criança. 
   
Depus a máscara, e tornei a pô-la. 
Assim é melhor, 
Assim sou a máscara. 
   
E volto à personalidade como a um términus de linha.