segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

noite de chuva e lua

Ontem à noite tinha lua, uma lua tênue entre nuvens e chovia também, numa brincadeira entre relâmpagos e luar. Eu estava na casa dos meus pais no interior. A chuva acabou provocando a interrupção do fornecimento de energia e então ficamos por umas duas horas às escuras. No vizinho havia uma confraternização de músicos e o som de violões e cavaquinhos acabou invadindo também aquela noite. Ficamos na varanda vendo o brincar da lua com os relâmpagos e escutando a música, eu, minha tia e minha mãe. A luz da noite atravessava a chuva e mostrava os contornos das casas e das pessoas. Era uma coisa tão simples e tão incomum pra quem, por viver há muito em grande cidade, acaba tendo pouquissímas chances de encarar a luz da noite como ela realmente é, sem a interferência tecnológica. Fiquei tentando imaginar como seriam as noites na antigüidade. Minha pele muito branca naquela luz lembrou-me estátuas antigas, raptos de virgens e outras coisas helênicas. Eu quis ser grega com chuva e lua ou qualquer coisa indefinível que escorre pelo tempo e me leva a escrever sobre antiguidades como ser mulher, ter útero, ter sangue e ainda conseguir ser leve.
Conservatória, 28.12.2009

domingo, 27 de dezembro de 2009

A poesia vestida de azul

SONETO DO DESMANTELO AZUL

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.


Carlos Pena Filho (conterrâneo de Cabral e Bandeira, elogiadíssimo pelo último e desconhecido por quase todos).

sábado, 26 de dezembro de 2009

no silêncio dos livros, o prazer da leitura







A mulher e o livro, imagens colhidas no blog "O silêncio dos livros".

sábado, 12 de dezembro de 2009

os olhos

(nauro machado)
às vezes as pessoas me conquistam pelos olhos...

Entrevista de Nauro Machado

Entrevista de Nauro Machado
Maio 2003
Ricardo Leão — Ponta Grossa - PR

Nauro (Diniz) Machado nasceu em São Luís do Maranhão, no dia 2 de agosto de 1935. Um dos poetas brasileiros mais fecundos e importantes de todos os tempos, ainda esperando por uma devida consagração crítica e de público de sua imensa obra, com mais de trinta títulos até o momento. Nesta entrevista, a maior e uma das poucas concedida (por ele mesmo considerada a mais importante até agora), Nauro faz um depoimento nodal, complexo, em que compõe um quadro amplo de sua visão ímpar da vida e da poesia. Comparado por alguns críticos a Fernando Pessoa, Nauro possui uma obra realmente singular, distinta de qualquer poeta contemporâneo, mesmo de sua geração, por apresentar traços de reflexão existencial angustiada e violenta que encontra poucas comparações na lírica de língua portuguesa. Conhecido, traduzido e citado por um não diminuto círculo de intelectuais (Drummond, Cabral, Cassiano Ricardo, Alfredo Bosi, Luciana Stegnano Picchio, Fábio Lucas, Ferreira Gullar, entre muitos outros), em livros de história literária e antologias internacionais, enciclopédias e dicionários, este solitário poeta maranhense é um convicto criador, sem concessões ao fácil e ao midiático em sua poesia. Uma das grandes razões para sua obra não seja vastamente conhecida é o fato de que seus livros se encontram, em sua maioria, esgotados. As poucas antologias publicadas e, mais recentemente, a vigorosa Nau de Urano (2002) — com mais de 800 sonetos de sua obra —, têm sido responsáveis pelo pouco que se conhece de sua literatura entre os leitores brasileiros. Acompanhe agora a vigorosa entrevista concedida a Rascunho.

Quais obras e autores, de sua permanente leitura, acreditas serem as principais influências diretas, que apontam para as grandes vertentes não apenas temáticas, mas estilísticas de tua poesia?
Por ser em parte um depoimento da verdadeira biografia do homem que a faz, como você diz ao perguntar não apenas sobre as influências diretas por mim sofridas na elaboração de uma hipotética Obra Poética, mas principalmente sobre as vertentes temáticas e estilísticas que a enformam e desvelam, creio ser mais importante, para aquilo a que você se propôs, rastrear as coordenadas psíquico-conteudísticas que me permeiam a simbiose homem-poeta (veja o poema O parto) nessa verdadeira busca pela palavra a revelar-se de uma forma que intento pessoal. E a forma, como você sabe, é o fim coeso e irredutível dessa busca que o homem, quando poeta, empreende como retorno visionário à sua própria, única e inalienável origem. Devo dizer-lhe assim, para início de conversa, que aquelas vertentes, caso sejam poemas aquilo com que sempre me vi e vejo vivendo na cotidianidade anômala e cinzenta da minha existência provinciana, deságuam, em forma poética, na pessoa que sou e as tenta viver e equacionar de maneira menos abjeta que a daquela vivida na constatação das minhas vísceras, para suprir uma falha ou fissura ontológica no fundo fraccionado do meu ser; para me situar nesse espaço sem fundo que sou e perceber o que perdi e sobra naquilo que ainda tenho ou mereço ter, de acordo com os cálculos das minhas probabilidades mínimas ou espaços maximamente reduzidos. Daí o serem, aquelas vertentes, uma queda ininterrupta no vácuo de meu espírito, uma abissal angústia existenciária buscando a forma real e única que me dê ao menos a possibilidade de vir à tona do verbo, a fim de desvelar-me além da hipotética aparência da minha vida, que é um mistério inapreendido e ainda inacabado como poesia. Poesia que só é poesia quando traz em si um segredo, como disse Ungaretti em entrevista concedida a Alfredo Bosi. Um segredo que, no meu caso, está encerrado no fundo inconsciente da minha "alma cerebral", numa paisagem ambígua de trevas e luzes, com seus acontecimentos pretéritos talvez informuláveis pela palavra e que tento trazer, repito, à tona da minha visualidade de pura emoção verbal, como emoção pensada, conforme o célebre verso pessoano, e a revelar-se também através de seus correlatos objetivos, de acordo com a não menos célebre definição eliotiana. Sobre quais autores e obras se constituíram numa influência direta da minha poesia e da minha maneira de viver-lhe o apelo ou chamado existencial, no momento mais propício e exato para fazê-lo, posso sintetizá-los, numa soma por exclusão, em apenas três: Netotchka Nezvênova, de Dostoievski, Poesia e prosa, de Edgar Allan Poe e Morte em Veneza, de Thomas Mann.
Tua poesia apresenta, como toda grande poesia da lírica moderna desde Baudelaire, a característica apontada por Hugo Friedrich como dissonância, sobretudo imagética, possível de ser encontrada na maioria de teus poemas na forma de insólitos oxymorons. Em quais pontos concordas e em quais (se é que os há) discordas essencialmente desta visão? Acreditas estar vinculado a esta tradição da lírica moderna?
Minha poesia, como você diz, apresenta uma grande dissonância imagética, se vista sobretudo sobre o foco exaustivo dos seus oxymorons, como tópico às avessas do meu inerradável pasmo existencial. Minha lírica, versando sobre o escatológico no seu duplo sentido e com suas perquirições metafísicas, de abissal inquinação no âmbito até mesmo lingüístico do homem que a faz, está vinculada à tradição lírica moderna, transcendendo a simples compreensão de uma elementaridade vocabular simplesmente confessional (no seu termo mais amplo) para ater-se às culminâncias de um sistema lingüístico epistemologicamente interativo e em torno do qual giram, como estrelas (ainda que sujas), as galáxias de outros mundos e universos. O sentido dessa lírica desenreda um fio narrativo infenso a qualquer enredo fundado pela codificação mecanicista do fato consensual e público. Penhora do divino na catarse humanitária da dor, o poema lírico, como o vejo e faço, pertence a uma categoria inclassificável, além de qualquer dor comprometida simplesmente com o humano enquanto diminuição associativa do simples e estéril sentimento, pertencendo, pois, à categoria do salto teológico indispensável para que o eterno possa revelar-se, no plano humano, na sua condição de aposta feita também por um jogo a não abolir jamais o acaso. Assim, por ser uma arte anacorética, como a definiu Been, a lírica potencializa o incurso individualista no território indiviso de suas fronteiras, sem o arrimo de qualquer utopia de salvação coletiva capaz de validar-lhe — ou dele inferir — qualquer utilidade consentudinária com as estruturas sociais vigentes. Só, iniludivelmente só, diante do eu-próprio que lhe individualiza o ser, moldando-lhe os espaços, e dos seres que lhe emblematizam a objetividade duvidosa ainda que real dos outros seres, o lírico não pode constituir-se ou arrimar-se no simples apêndice supurado no corpo textual da natureza e do universo. "Sou um homem só/um só inferno", nos ensina o verso sóbrio e dorido de Quasimodo.
Em um primeiro contato com tua poesia, tem-se a tendência, profundamente relativa e mesmo equivocada, de tê-la como de difícil entendimento e até hermética. Isto me lembra a passagem em que Northrop Frye, o grande crítico americano, em sua obra Anatomia da crítica, particularmente na Introdução polêmica, assinala a preocupação que muitos poetas ou subliteratos têm em tornar suas obras comunicáveis, tentando assim facilitar, de modo expresso, o diálogo (como é possível medi-lo?) entre leitor e obra e, porventura, o autor. Contudo, Frye alerta que esta preocupação sempre traz consigo o risco de cairmos em níveis subliterários, tais como a prosa versificada ou simplesmente a fala métrica, destituída de qualquer poesia, entretanto largamente confundida com o fenômeno poético, como sucede atualmente, na poesia brasileira. Uma das conseqüências deste fenômeno é o fato de gerar-se uma panacéia crítica que culmina em falsas celebridades e, outra, o surgimento no meio literário, de acordo com Octavio Paz, de hábeis construtores de versos e artefatos literários, a exemplo dos árcades e parnasianos, mas não de legítimos poetas, aqueles que realmente teriam algo a dizer. Contudo, voltando ao primeiro ponto da questão, Baudelaire afirma que, quanto menos um poeta é compreendido, maior é sua glória. Como te posicionas diante deste quadro?
Sempre escrevi sabendo que um único verso traz consigo uma carga de experiências vivenciadas no âmbito dos acontecimentos e dos seres. Não estou evidentemente falando do poema como um produto do meio ou receptador somente das correntes migratórias levadas ou trazidas ao poema pela mais-valia ou menor-valor de um econômico temporal: todos sabemos que o radicalismo da maior hermeticidade pressupõe, em regiões mais fundas que a do simplório mais simples, a argamassa e as pulsões até mesmo de projetos políticos que ao poeta cabe testemunha e viver. Um poema de Paul Célan, por exemplo, chega por vezes (ou quase sempre?) a alcançar a dimensão mais abrangente de um fazer social: seu hermetismo, como já dito algumas vezes, faz-se através da negação e da negação da negação. Portanto, como dialética da própria existência humana. E se assim é, como não haverá o poeta medianamente culto de fazer-se pelo acúmulo existenciário do em si vivido? Gostaria, pois, de dirimir alguns equívocos que a fazem ser vista como fruto apenas da história particular do homem que me individualiza psicologicamente, o que tem induzido algumas pessoas ao erro de vê-la como "metaforização hermética" de problemas insistentemente revoluteando em torno de um insondável e informulável centro. Nunca fui um poeta criptográfico, como já disseram alguns, pois o hermetismo jamais foi por mim cultivado como um contra-ponto à falha de um real não aceito ou resolvido existencialmente através de uma visão defeituosa e redutora das coisas, e nem tampouco para atingir, pelo acréscimo de enxertos obscuros, uma desejada supra-realidade sensível que poderia, à maneira de Rimbaud, implantar minhas talvez monstruosas verrugas no terreno árido do meu Parto ininterruptamente laborioso. É inegável que existe em mim uma imensa carga inconsciente de temas obsessivos e que tornar esse fundo obscuro em matéria objetiva a que o verbo insufla, como necessidade eu diria agônica, a forma particular do criador que lhe dá extensão e vida, é a tarefa maior e talvez impossível de quantos têm por fim, como eu, a realização final de um poema. Finalizando: pelo fato de minha poesia abordar certas zonas profundas de uma experiência particular, ela se reveste de uma radicalização metafórica a que falta por vezes a normatividade dos conceitos generalizantes. Embora não elitista, ela nunca chegará a ser compreendida verdadeiramente por muitos. O poeta que a faz e que a vive (ouso dizê-lo) é, não obstante, como tenho observado e sentido, apreciado ou mesmo amado por camadas significativas do nosso povo.
Uma questão que intriga os teóricos da literatura são as forças que concorrem para o ato criador. Sabe-se que, desde o ensaio sobre o espírito da tragédia, de Nietzsche, o ato criador tem sido dividido em duas categorias: a apolínea e a dionisíaca. A visão do poeta apolíneo, mestre absoluto da engenharia poética, foi difundida pela modernidade desde a falência do mito do artista inspirado, possesso, porta-voz de forças misteriosas e, no lugar dele, surge o poeta que trava uma luta interna e eterna por transformar a matéria-prima da poesia, a linguagem, em obra de arte, cujo valor estético reside, talvez, em si mesma. Por outro lado, não se nega que a inspiração interfere de modo intrínseco, direta ou indiretamente, no ato criador. O que achas de tudo isto?
Fritz Teixeira de Salles, que tanta falta faz à crítica de poesia hoje feita no Brasil, tocou com certeira visão analítica o corpus aberto da minha matéria verbal, ao dizer, referindo-se ao meu livro A antibiótica nomenclatura do inferno (1977), que "sua (minha) poesia é uma encruzilhada de dois caminhos do mundo ocidental: o apolíneo (no seu classicismo formal e vigoroso) e o dionisíaco (no sentido existencial da tragédia). Nauro Machado oscila e vacila entre Homero e Arquíloco, os dois caminhos do ontem que fabricam o hoje. Com sua sensibilidade algo brutal, num erotismo selvagem de poderosa fluidez sintática, a poesia de Nauro Machado sofre na alegria do sexo e vive na dor de viver". A título de informação, devo dizer-lhe que um dos livros que mais me influenciaram na minha longínqua juventude foi justamente A origem da tragédia proveniente do espírito da música, o que me levou a ler quase toda a obra de Nietzsche publicada em língua portuguesa, e que ponho ao lado da de Heidegger, filósofo-poeta que me entreabriu com seus insights o mais lato pasmo-pânico-existencial necessário à intuição majestática da vida como mistério. De fato: na conciliação desses dois extremos, o apolíneo e o dionisíaco, é que vivo minha existência de artista-homem dividido entre o cerebral (forma) e o instintivamente desmesurado e anômalo (conteúdo), tentando unir a metodologia poética de Poe à inspiração sem limites do espírito trágico que me impulsiona e fundamenta o ser dividido que sou. Mas a verdade é que nenhum consolo ou paz me arrima nesse percurso intuído e revelado através da nadificação do Ser pela linguagem como presença ontológica-sensorial do poema.
O que achas que impede a larga difusão de tua obra a todos os recantos deste país? Por que aparentemente se ergue uma barreira de resistência e silêncio em torno dela? Ou esta barreira não existe, é apenas fruto de nossa incapacidade atávica ou crítica de julgar sem etnocentrismo ou preconceito?
Não creio sinceramente que haja qualquer impedimento à difusão da minha poesia no Brasil ou que exista tampouco algum propósito deliberado em fazê-la desconhecida do grande público, tornando-a vítima propiciatória de uma conspiração do silêncio. Não sei também se essa omissão é apenas fruto do que você chama de "incapacidade atávica ou crítica de julgar sem etnocentrismo ou preconceito", levantando a suspeita de isso se verificar pela minha situação de insularidade nordestina, preso a uma ilha esquecida, e sem vocação nenhuma para a sociabilidade literária de grupo ou igreja. O certo é que ela, talvez também por minha exclusiva culpa, continua reduzida a um número limitado de leitores, ocupando um espaço geográfico a não extrapolar os estreitos limites de minha província natal. O que não me impede de ser conhecido pelos principais poetas brasileiros contemporâneos e daqueles críticos que respeito como insuspeitados homens de honorabilidade mental. Aliás, devo dizer-lhe que não tenho desejo algum em fazer-me chegar como poeta ao ominoso leitor-telespectador de hoje, ao qual oponho um irredutível nojo pessoal a não compactuar com a chacrinagem trumbiqueira de uma espúria comunicação humana. Vez por outra, para minha grande alegria ou forma de compensação humana, essa situação de silêncio é quebrada por alguma voz de além-mar, como a que recentemente me chegou através das palavras de Luciana Stegnano Pichio (autora do livro Storia della letteratura brasiliana), com o recente lançamento do meu livro Nau de Urano, uma antologia reunindo oitocentas e seis peças sonetísticas. Disse-me ela: "Sua poesia é áspera e bela, profunda e dorida. Corroborando Adonias Filho, eu diria: um dos grandes poetas brasileiros de todos os tempos". Continuo, pois, cumprindo minha sina de solitário poeta maranhense, conforme a exata visão crítica que de mim teve José Guilherme Merquior.
Há pessoas que classificam tua poesia como "assustadora" e "violenta demais", apesar de "instigante". Algumas, de sensibilidade mais dócil, recusam-se a lê-la. O que achas disto?
Seria de bom alvitre saber se essa pretensa violência da minha poesia possui uma força expressiva de valoração estética capaz de validar-lhe o produto final e em que contexto se move essa violência para uma possível aferição como obra artística. Sei que de fato a minha poesia é violenta, tanto em suas metáforas como no uso exagerado de seus vocábulos corporais, apresentando ainda um permanente e azedo clima de "guerra na Indochina/ e na alma também/ guerra na oliveira/ na empregada negra/ e no vira-lata/ que a criança acarinha/ com mão de granada". Antônio Olinto, ainda nos idos de 1960, publicava na sua coluna Porta de Livraria, do jornal O Globo, um artigo intitulado A violência de uma poesia mansa, enfatizando que "de nenhum poeta sei no mundo de hoje que tenha violência mais autêntica que a desse maranhense chamado Nauro Machado, e que é para mim o ápice da poesia brasileira pós Jorge de Lima". E em um comentário feito sobre a poesia brasileira no ano de 1972: "Há, em Nauro Machado, um satanismo que faz pensar no poeta inglês Francis Thompson e que produz, no maranhense de hoje, um tipo de poesia desesperada de que não temos outra igual". E também a suave Henriqueta Lisboa, assim se expressou sobre ela: "O teor de sua poesia é de violência, tanto maior ao aproximar-se do plano metafísico, em angustiado perquirir a que a lógica não atende, pelo afã de captar o inefável através de uma linguagem sempre mais dura e amarga". Sei também que a minha poesia tem uma violência de status metafísico, caso possa parodiar o Mesfistófeles do Fausto thommasmanniano ao dizer que a mediocridade não possui status teológico. Assim, no plano teológico da negação divina — se for isso possível — ou na vivência intuída como forma positiva do transcendente, sei que a violência poética, quando introvertida no homem que a pensa em versos ou que por reflexo social a vive e sofre no seu dia-a-dia, tem se constituído, ao longo dos séculos, como conteúdo temático e até mesmo de estilhaçamento estrutural do poema. Estou a lembrar-me agora do Paraíso perdido, de John Milton, na vociferação luciferina contra a violência divina que o expulsara de um plácido e perfeito Verbo, obrigando-o àquela miserabilidade imprecatória, fruto do orgulho, ao dizer que preferia ser o primeiro no inferno ao último nos céus. Estou a lembrar-me também daquele Dante luciferino, banido para sempre da sua Florença celestial, como já o fora na terra do amor sepulcral à sua Beatriz perdida. Este tópico, aparentemente supérfluo, é necessário explicar-lhe, ainda que de modo imperfeito, como nascem meus versos violentos na substância que lhes estrutura o ser fenomenológico como encarnação de um Verbo a ser visto e (a)palpado: esse Lúcifer miltoniano me influenciou também, ou até mais, quando transposto para um personagem cinematográfico tirado do romance O lobo do mar, escrito por Jack London, também ele um autor luciferino. Neste filme, o personagem Lobo Larsen, no caminho da completa cegueira, assim como Milton, quando escrevia seu Paraíso (duplamente perdido na terra em que viveu e nos olhos que lhe negaram vê-lo), cita aqueles versos como uma justificativa para assenhorear-se da sua maldade intrínseca, como atributo sonoro-estético da sua existência. Digo sonoro, por servir-me também da violência maldosa dos meus versos, tentando justificar-me, embora de maneira subalterna e inferior, através da minha poesia. Meus atos humanos diários se fazem pela imagem vivida e vívida da minha poesia. Já escrevi centenas de versos em salas cinematográficas, como aquele poema Reinado, que é o reino da minha principesca vida imaginária e onde poderia dizer, como nos versos de Lucy Teixeira (poetisa maranhense), que tanto admiro: "Sou o tirano da minha propriedade". Naquele poema, digo logo no seu início: "Para viver noutro lugar/ e de fome indiferente/ é muito melhor ficar/ nos pobres subúrbios da mente". Minha violência é mais à maneira sousandradina, de um Sousândrade inferior, é claro, mas vítima também de uma sociedade castradora, igual à daquela "sociedade celeste", tipicamente miltoniana, contra a qual me ergo e volto também na violência contida dos meus versos.
Harold Bloom acredita que a existência de um poeta forte (strong poet), segundo sua terminologia de fundo psicanalítico, deve-se sobretudo à superação dos modelos que o inspiraram, chegando mesmo a devorá-los, transfigurando-os, através deles, em outro. Supondo que exista, ou não exista, uma tradição anterior à tua obra, à qual ela se vincularia ou não, uma vez que não é de acreditar que, tendo-a ultrapassado, não podemos reconhecê-la mais no interior de teus versos? Que pensas disso?
Não creio que minha poesia tenha superado, como você diz, devorando-os mesmo, os vários modelos que a inspiraram, pois considero a tradição indispensável para o desenvolvimento de novos modelos culturais, como produto expressivo da civilização. Nunca procurei me enquadrar em nenhuma categoria gradual de poeta maior ou menor, mais forte ou mais fraco, dentro de conceitos que julgo dispensáveis e de nenhum significado para o ato particular de fazer poesia, assim como não creio que o poeta faça seu poema para encaixá-lo numa teoria adredemente preparada para recebê-lo. O poema, ao contrário do que disseram Poe, Valéry e alguns outros, não é uma fórmula matemática a ser resolvida friamente numa "psicologia da composição" à maneira cabralina de fazer versos como artefatos de uma produção exclusivamente mental, pois, embora podendo prever até mesmo a sua disposição final na página em branco enquanto o vai mentalizando como forma acolhedora de pensamentos expressivos pessoais, o poeta precisa daquelas emoções que são particularidades suas, a serem recriadas pelo homem-criador que as consiga viver para serem transferidas e mostradas no corpo imaterial, conquanto vivo, do poema.
Em que medida a crítica literária contribui para que uma obra seja aceita ou não? Existe uma função para a crítica, ou ela é apenas uma arte de muletas, ou ainda, o marketing da obra de arte, porém, em muitos casos, descartável, porquanto atrasada e/ou equivocada? A poesia necessita da crítica literária? Se sim, de que forma?
A crítica, muitas vezes difícil, pode transformar-se num exercício de hermenêutica autotélica, divorciada da sua finalidade precípua, que é a de revelar o poema como um produto alheio, com suas características próprias e indivisas, e não de revelar, re-velando-se, os conhecimentos idiossincráticos e às vezes anormais de quem dela se serve para obscurecer ainda mais o que em si já é muitas vezes fechado, por querer dar um "sentido mais alto às palavras da tribo".
Uma das coisas que impressionam em tua poesia é o fôlego, uma vez que já superas o número fantástico de mais de trinta livros de poemas publicados ao longo de tua vida, e com tanta qualidade. É impressionante. Prova de um apetite poético voraz, insaciável talvez, que deve elevá-lo, inevitavelmente, à condição de recordista de publicações na lírica de língua portuguesa, talvez universal. Queres publicar até o último de teus dias? Quantos livros inéditos de poemas ainda tens? Trabalhas em algum neste momento?
Minha lírica — com trinta e um títulos já publicados, sem incluir suas duas grandes antologias, a primeira delas com poemas reunidos sob a responsabilidade crítica de Nelly Novais Coelho, contendo quase quinhentas páginas, e a que foi lançada pela Editora Imago, em convênio com a Fundação Biblioteca Nacional e Universidade de Mogi das Cruzes, com aproximadamente quatrocentas páginas, além de uma outra bem menor, feita pela escritora-poeta Arlete Nogueira da Cruz, intitulada Jardim de infância, para uso dos universitários maranhenses — é realmente muito vasta, movendo-se no círculo de um compasso poético distendido anormalmente, se visto sob a ótica redutora de alguns poetas de parca criatividade. Não vou citar, por redundante, os títulos de todos os livros que a compõem, limitando-me a relacionar os daqueles inéditos e que já se encontram à espera de alguma editora que os queira publicar: A rocha e a rosca, um único poema composto de cerca de mil e quinhentos versos em redondilha maior; Chumbo e rugas do trigésimo; Pão maligno com miolo de rosas; e um imenso poe-ma, ainda em andamento e sem título definitivo, já tendo aproximadamente quatro mil versos, todos em decassílabos. Escrevo, sem dúvida, por uma necessidade de querer fazer-me presença viva para os outros, como uma forma pensante de existir e por saber que a poesia é, para mim, um caso de vida ou morte, como já disse alhures, e "não um simples pretexto para malabarismos vazios ou teoremas que digam respeito a um modismo falho e de autenticidade duvidosa".
Concordas com a visão adotada pela crítica especializada, segundo a qual tua obra se filia também ao esforço estetizante da geração de 45? Ou tua formação deve-se exclusivamente a um esforço pessoal, livre dos influxos temporais de uma geração ou de qualquer "ismo" de natureza estética? Acreditas que é possível transcender, de acordo com Octavio Paz, o estilo meramente histórico, projetando sua obra para além de sua época?
Apesar da minha leitura inicial e constante de Bocage e Camões, ainda nos meus treze anos de idade, seguida, logo após, de Antero de Quental, Raimundo Correia, Alphonsus de Guimaraens (e alguns outros), até chegar aos simbolistas franceses, quando incipientemente comecei a escrever por uma necessidade que era impulso compensatório para a perda física de meu pai, a purgar-se também através de uma pungente e auto-destrutiva solidão alcoólica, não posso, em sã consciência, dizer que a geração de 45 influenciou minha obra sonetística — principal vetor dos seus pressupostos formais-estéticos. Minha poesia, posterior à daqueles anos iniciais, fez-se influenciar, sobretudo, por paradoxal que seja, pela leitura apaixonada dos grandes romancistas mundiais, como Dostoievski, com sua angústia metafísica e dolorosa consciência do mal, e Thomas Mann, pelo seu incurso nos domínios sombrios da morte e da arte. Minha poesia, seus sonetos que o digam, foge por completo aos cânones daquela geração, que reputo contudo importante pela expressividade de alguns nomes que a compõem.
Há em tua obra uma quantidade notável de poemas sumulares, de métrica curta. Alguns, curtíssimos. Chegaste mesmo a publicar um livro apenas de peque-nos poemas (Funil do ser), no qual expressas a síntese poética em sua expressão lapidar. Isto chega a lembrar, sem sugerir influência ou algo similar, a obra de Emily Dickinson, evidentemente com distinções temáticas e vocabulares pontuais e díspares. Acreditas que, no futuro, farão uma aproximação desta parte de tua obra com a da grande poetisa americana, ou esta aproximação não é válida? Em qualquer resposta, por quê?
Forma de uma técnica redutora a visar, no entanto, a largueza sonora de um pensamento a não se exaurir no verso, encapsulando o instante como um flagrante da eternidade, a forma do poema curto, excetuando-se a do soneto, é a que mais me atrai e obsessiona no meu continuum ofício existencial. Há alguns anos, Frederick Williams, autor do livro Sousândrade: vida e obra, tese de doutoramento defendida em universidade norte-americana, escreveu-me dizendo do seu interesse em verter para o inglês, num único volume, todos os meus poemas curtos até então vindos a lume. Ele os relacionou para mim, classificando-os de acordo com o número de suas estrofes, que se reduzem às vezes a apenas um verso. Depois dessa carta, fiz publicar o livro Funil do ser (1995), que apresenta também a particularidade de em suas 126 peças não mostrar uma única rima. Estou também, no momento, como disse acima, concluindo um novo livro (já está pronto) exclusivamente de poemas curtos. Creio que, com ele, dou um passo adiante na minha maneira de realizar esse "afunilamento" formal e existencial, como introjeção metafísica de uma dor sonora na sua inseparabilidade entre forma e conteúdo. Quanto à aproximação, em nível de linguagem, influência ou algo similar com a lírica de Emily Dickinson, o que para mim seria honroso, ela praticamente inexiste, exceto pelo fato biográfico de aquela poeta haver vivido como reclusa em sua cidade natal e de eu cumprir na minha ainda provinciana São Luís um destino solitário, conquanto de menor, muito menor grandeza em todos os seus níveis.
Como a perda de teu pai impulsionou-te à poesia? Ou este impulso já existia, independentemente de qualquer perda? Como surgiram os teus primeiros poemas? Já ensaiavas versos quando criança, ou esta vocação confirmou-se após uma infinidade de leituras?
Se o que existe na feitura do poema é um encontro como aquilo ou aquelas coisas que estão latentes e como que incluídas já na sua própria busca, e como "falhei de tudo o pouco que ainda pude", sempre associei o impulso poético à perda que lhe acompanha o ilusório ganho textual. E se o poeta é também um "fingidor", aí me incluindo por exclusão de outras máscaras, minha poesia começou pelo entendimento de que a ela competiria a vida, o que é falso, por habitá-la o silêncio de uma inabitável solidão. Acredito por vezes, e não como certeza, que a perda física de meu pai fez aflorar o impulso poético que em mim já existia latente, antes daquela dor que me fez órfão para sempre do que em mim — sobrevivendo em mim — eu posso até hoje sou.
Meses atrás, o poeta Alexei Bueno — com o qual manténs, fora o rigor extremamente clássico, algumas afinidades líricas — iniciou uma polêmica muito produtiva e interessante sobre a predominância de uma determinada mentalidade literária que tem prejudicado a devida apreciação de obras de poetas como você, aos quais Bueno se soma e solidariza. Acreditas que estamos diante de uma diatribe importante, diante do quadro lírico que a literatura apresenta hoje?
Alexei Bueno, pelo que me tem chegado por via indireta, visto eu não ler, pois aqui não chegam os jornais em que ele vem travando uma polêmica contra alguns corifeus da poesia brasileira contemporânea, fez-se arauto de uma poesia na qual eu gostaria de me incluir, por exclusão deliberada e consciente de um grupo que tomou conta de todos os espaços divulgatórios existentes, graças ao poder dos círculos acadêmicos que lhes respaldam os anêmicos e inconsistentes poemas. Aliás, Pedro Lyra, autor da antologia intitulada Sincretismo: geração 60, foi combatido pelos chanssoniers que nela não foram incluídos, e a quem ele depois fulminou em dois artigos, se me não engano, publicados neste Suplemento Literário.
Acreditas que, se não morasses em São Luís, a tua obra não seria a mesma? As admoestações que viveste na capital maranhense contribuíram de modo significativo para a construção de teus principais temas?
Costumo dizer que sou um poeta do tempo das diligências, onde as coisas são lentas e os espaços reduzidos mais imensos, se vistos pelas lentes da interioridade. E é nesse miolo interior, à semelhança de um funil onde desemboca meu ser, que venho, numa relação permanente de amor-ódio, reconstruindo em quase todos os meus poemas, de maneira transfigurada, as ruínas dos objetos e das coisas, das lembranças provincianas, dos sobrados decadentes e/ou arruinados, com sua atmosfera de mazelas físicas e espirituais, com seus becos tortuosos e a disformidade anômala de seus mendigos, tudo que está parado ou se move nessa minha cidade-berço, onde os mortos é que estão nascendo e os vivos apodrecem reais e como póstumos. Não canto a cidade de São Luís à maneira sentimental-escatológica de um Gullar, do modo ufânico-lírico como o fez Tribuzi, ou de forma irônica e mordaz, embora de grande incurso fenomenológico na sua temporalidade de grande beleza histórica, como José Chagas o faz. Tenho um livro inteiro, lido apenas por pouquíssimas pessoas, que demonstra essa minha relação sadomasoquista com a Ilha que é vista por mim, até mesmo em suas noites, como uma lamparina na aurora. Escrevo meus versos, vivendo em São Luís na sua máscara-esfíngica de mãe carrasca ou musa sublime. A verdade é que venho tecendo, livro após livro, a biografia metafísica de uma épica às avessas, infernalizada dentro, por um poeta ancorado sem qualquer laivo de grandeza entre as muralhas de uma Tróia provinciana. Uma Tróia a invadir minha obra inteira, fazendo-se presença física obrigatória e pertinaz, amalgamada pela metaforização transfiguradora de seus espaços e da sua história temporal. Minha poesia, para quem se dê ao trabalho de rastrear-lhe as in-fluências formais/conteudísticas, está impregnada até mesmo pelas anomalias deste espaço a estender-se sobretudo entre os rios Anil e Bacanga e cujo coração se faz sentir e bater na Praia Grande. Se não cheguei ao extremo de estender as mãos para pedir esmola "na mesma língua em que a pediu Camões", conforme o célebre verso junqueirano, com certeza tenho estendido alguns dedos. E dedos sem anéis, acostumados apenas e algumas vezes à imprecação do dedo médio, naquela maneira blasfematória de quem por Dante foi jogado nos últimos círculos do inferno. Posso tranqüilamente dizer-lhe que conheço e vivi os versos do meu poema Ofício, cujo título original era Fundação SESP. Mas a verdade é que de alguns anos para cá, sobretudo a partir do governo da minha querida amiga, senadora Roseana Sarney Murad, ganhei o reconhecimento oficial dos meus conterrâneos, sendo até mesmo nome de praça e tema da Escola de Samba Turma do Quinto, que ganhou o carnaval de São Luís no ano passado, com um enredo baseado em minha vida e poesia.
Desejando ser útil aos leitores e poetas neófitos, lembro-me que, há anos, mais de quinze, recebi um conselho seu de natureza literária. Disseste, naquela ocasião, isto: "Leia muito. Escreva muito. Pesquise muito". O que dirias aos que têm pretensões de ser poetas, conhecer as leis que regem esta arte da palavra, no intuito de se tornar donos de uma grande obra, como a tua?
Diria novamente o que você, com a generosidade que lhe é própria, chamou de conselho de natureza literária, acrescentando apenas, àquela tríplice súmula, com a experiência de quem chega quase ao final do seu malogrado projeto poético, para esse futuro e hipotético poeta jamais procurar ver-se no espelho dos outros, aceitando com humildade o seu próprio e intransferível rosto e a subseqüente solidão que lhe advirá com a certeza de que a poesia, desde que imagem sua, reflexo somente do seu rosto, ainda que disforme, é uma presença mais viva e necessária, porque verdadeira, do que o seu próprio corpo. Veja, poeta: eu faço parte de uma geração maranhense que já ultrapassou a metade de seu tempo de vida e que ainda continua escrevendo como única e possível maneira de testemunhar seu tempo e suas individualidades. Chagas faz uma poesia diferente da de Gullar, que faz uma poesia diferente da de Tribuzi, que fez uma poesia diferente da dos dois, que fizeram e fazem uma poesia diferente da minha, que a faço diferente da deles três. Pois, como disse e. e. cummings: "O país estritamente ilimitável de cada artista é ele mesmo. Um artista que trai esse país se suicidou; e nem mesmo um bom advogado conseguirá matar esse morto. Mas um ser humano que é fiel a si mesmo — qualquer que seja esse si mesmo — é imortal. E todas as bombas atômicas de todos os anti-artistas do espaço-tempo não civilizarão jamais a imortalidade".

minha sagrada presença

Não ando aceitando
Dividir minha presença
A baixo custo.
Não é qualquer coisa mais
Que me demove
E que me move
A sair de onde estou,
Do território de mim
E navegar por mares alheios.
Minha presença
É sagrada.
Não que outras presenças não sejam sagradas
e eu esteja sendo esnobe.
Apenas não ando perdendo tempo
Com qualquer coisa que
Não valha a pena.
Não ando prostituindo socialmente
Aquilo que me é caro,
Por conta de ser politicamente correta
E polidamente agradável.
Até meus espinhos
Têm sua razão de ser
E eu os respeito muito.

depois dos castelos

Eu tenho desmoronado meus castelos,
Parede por parede,
Tijolo por tijolo
E tenho ficado surpresa com o que acho.
Não encontro vazio ao final.
Encontro-me,
Ao final,
Nua,
Inteira
E bela.
Ao final
Da desconstrução
Eu estou
E sou
Plena.
Bela,
Muito bela,
Minha luz vazando por todos os poros,
Não há mais obstruções.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

WHERE de Taha Muhammad Ali

Poetry hides
somewhere
behind the night of words
behind the clouds of hearing,
across the dark of sight,
and beyond the dusk of music
that's hidden and revealed.
But where is it concealed?
And how could I
possibly know
when I am
barely able,
by the light of day,
to find my pencil?


de So What?, coletânea bilíngue (árabe/inglês) do poeta palestino, com tradução de Peter Cole, Yahya Hijazi e Gabriel Levin.

Tradução para o português de Celina Portocarrero:

ONDE

A poesia se esconde
em algum lugar
atrás da noite das palavras
atrás das nuvens do ouvir,
em meio à escuridão do ver,
e além da poeira da música
que está encoberta e às claras.
Mas onde se oculta?
E como poderia eu
sequer saber
se mal
sou capaz,
à luz do dia,
de encontrar meu lápis?

sábado, 21 de novembro de 2009

em pane direto pro oceano

Eu nua
Com os cabelos longos
Pelas costas afora
Escutando wally e adriana
Caminho pelo apartamento
Os bons não se curvam
Rei rainha
Tresloucada pelas curvas de mim
Porque a reta é torta
Em se tratando de mim
Tiro um fino com o destino
No meu desatino
Mimetizo a dança da estrela
Hei, hei,
É o jogo no redemoinho
Na lua tonta
Perdida em ser crescente sempre
Insônia
Ponho gargalhadas nos meus passos
A poesia em pane
Me chamusca

FMeireles - Litterofagia: escritas poéticas

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

o meu tejo



hoje olhando pra essa foto, lembrando-me da minha adolescência sentada em silêncio às margens desse rio, penso no guimarães e vejo que o que me ficou realmente foi a terceira margem, aquela que, às vezes, me assombra em sonhos com suas enchentes fortes, cujo som eu ficava quieta no quarto a escutar. na madrugada eu acompanhava com o meu silêncio respeitoso imaginando se suas águas já tinham tomado a estrada. já no inverno suas águas corriam mansas e era certo me encontrar sentada nas pedras da margem perto da moita de bambus, com os pés dentro d'água, em completo silêncio, a escutá-lo, que dessa vez falava baixinho. minha tia dava por minha falta demorada e já começava a falar: já está ela na beira do rio e não sabe nem nadar. mas eu não tinha medo do rio, nunca pensei que algo pudesse me acontecer. esse rio manso também me aparece nos sonhos, límpido e forte. de tudo do lugar, das pessoas, dos acontecimentos, de toda a vida vivida ali, só o rio me ficou. sua/minha terceira margem doce ou feroz me prende num navegar eterno. margem a margem de mim. o meu tejo é belo.
Fernanda Meireles, 19.11.2009

um da bruna lombardi

Uma mulher

Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela
xxxxxxxxa
cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca
xxxxxxxx
uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
xxxxxxxx
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.

mais outro do meu livro

o senho do labirinto

Arthur Bispo do Rosário
o senhor do labirinto
fios de ariadne
pelos caminhos do si mesmo
egominotauro
contraface de teseu

terça-feira, 17 de novembro de 2009

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Apocalíptico

99942 apophis

Objeto móvel no escuro
De mim.
Matéria sólida
E invisível.
Portador
Da morte e ressurreição
Da minha voz.
Palavra,
Pedra cabralina
Em órbita de colisão
Com a efemeridade
Das personas
Do teatro egóico -
Morte, música, silêncio.
FMeireles, 14.11.2009

sábado, 14 de novembro de 2009

uma flor...

KIKYO
é uma flor japonesa azul
guardada por uma sibila velha -
minha tia -
para o jardim
da minha casa nova.
Fernanda Meireles, 14.11.2009

domingo, 8 de novembro de 2009

homenagem a camille claudel

camille

força motriz
insubstanciada
e insubstanciável.
a força em busca
dolorosa e
apaixonada
da forma.
luz consubstanciada
na matéria
pétrea.
volúpia de vida
a caminho da morte.
tudo em um átimo
de existência.
tão rápido
e belo
daimon cortando o céu.

um do piva

Que você conheça o relâmpago
chamado mundo sombrio
Estremecendo na folha do seu
coração
Que você conheça este relógio sem nuvens
chamado morte
dependurado no planeta
como volúpia secreta
Que você conheça manguezais
& realidades não-humanas
que são a essência da Poesia
Que você conheça o sussurro do Sol
Na água ferruginosa dos seus olhos.
Roberto Piva

sábado, 7 de novembro de 2009

big bang egóico


danação do poeta

(a título de introdução)
adélia prado em anunciação ao poeta fala da fome incansável da boca enorme que habita o poeta danação divina presente aos miseráveis que quiseram ver mais do que podiam castigo eterno que leva a um banquete autofágico delirante oroboros vivenciado diariamente desejo de morte clamor de paz voz emudecida pincel bruto nada traduzem e o corpo explode em sangue haraquiri de um samurai vencido pela sua finitude pequenez desejando o incognoscível danação danação danação mísero e bruto ser explode que a morte é o maior gozo

sábado, 31 de outubro de 2009

Sobre "As Cidades Invisíveis" de Italo Calvino

A prosa de Calvino me conquistou por sua beleza, simplicidade e leveza. Seus textos tecem como que uma trama no ar, sutil e efêmera , porém eterna. As palavras escolhidas com maestria, têm a pureza e o brilho de brilhantes, mas não são de matéria concreta, compactas ao contato. Não, sua natureza é quase etérea. Suas descrições são quadros elaborados pelo toque certeiro e exato, sem exageros, sem faltas. Formam imagens que atravessam o plano pictórico e aportam no espírito. É um filosofar existencial através da poesia e da imagem.
Suas Cidades Invisíveis jamais serão reveladas. Seu sentido é captado num instante, para, logo depois, desaparecer. Brilho de estrela cadente, efêmera, bela, cintilante, deixando-nos sedentos de nova visão, de nova leitura. Entretanto, se voltarmos às Cidades, elas já não serão as mesmas, contudo terão do brilho anterior a mesma natureza, noutra revivência. Leituras novas/estrelas cadentes novas que se sucedem e nunca se repetem, preservando o mistérios que envolvem sua origem, sua passagem por nós.
Significados invisíveis na linguagem equilibrada, fruto maduro, no instante exato em que já não é verde e também não é maduro demais. Significado invisível-fruto apanhado no ponto. A linguagem-mãe, árvore frondosa e propiciadora do fruto. Linguagem que é densa de seiva, porém com flores sutis e frutos efêmeros.
As Cidades Invisíveis nos habitam, escondem-se nos meandros de nossa alma. Somos Marco Polo e Kublai Khan ao mesmo tempo: o imperador de nós mesmos, desconhecedor de seu império, e o aventureiro na busca do conhecimento de si. Porém, as imagens não são as mesmas: O imperador, que ouve o relato, vê uma cidade diferente daquela narrada pelo aventureiro. E, ironia, maior: a cidade narrada por Marco Polo também não corresponde à cidade visitada.
As cidades invisíveis que nos habitam continuam cercadas por véus, a fome de Kublai Khan e as viagens de marco Polo continuam eternas. Sísifos de nós mesmos.

s/ pele


é como estar sem pele

uma fruta
um tomate
sem pele
os nervos ao ar livre
e o mundo fica imenso
e vc grávida de tudo

o escuro
sempre o escuro
e seu dom de
me deixar prenhe de mim mesma

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Quando alguém se vai


Meu pai se foi. Em mim, não há enchentes ou correntes revoltosas, mas um imenso deserto. Seca e aridez no meu rosto. Eu, aqui, sentada no meio do nada que é minha alma...

sábado, 10 de outubro de 2009

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Nascente

Litterofagia vai virar livro em breve, breve. Sob o Arcano dos Arcanos, a Vontade, sob Amor, vira Lei. Um fruto, um sol nascente em mim. Chuva de ipês na alma, abençoada trilha do escrever, vertida a voz no papel, consubstanciada a Obra.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O Primeiro Fausto - o livro


O Primeiro Fausto - algumas palavras sobre a obra

Fausto é um mito ocidental nascido do conflito entre o Obscurantismo Medieval e o Iluminismo Renascentista. O surgimento desse mito deve-se a um drama produzido por autor anônimo a partir de relatos populares sobre a vida de um tal doutor Jorge Faustus (Alemanha 1480? - 1540?), mágico errante, conhecido por suas práticas de cura e de profecias, versado em medicina, alquimia, astrologia... A lenda conta que este personagem teria vendido a alma em troca de conhecimento e prazer.
A grande aceitação popular do mito naquela época deve-se ao conflito imposto ao homem ocidental pela contra-Reforma. A sede de conhecimento seria, na verdade, um ato de afronta a Deus por querer se equiparar a ele através do poder conferido pelo conhecimento sensível (prazer) e intelectual (conhecimento). Por essa razão, Fausto deveria pagar com sua condenação ao fogo do inferno. Por essa mesma condenação passou Giordano Bruno. Figuras contemporâneas desse Fausto anônimo foram Paracelsius, Nostradamus, Bacon, Galileu.
Goethe, ainda criança, toma contato com o mito através de apresentações de teatro mambembe ou de teatro de marionetes apresentadas em praças de mercado. Essa história marcará toda a sua vida e representará a própria essência de sua existência. O autor trabalhou sobre o texto durante sessenta anos. Mas, diferente da fábula popular, o Fausto de Goethe, ao final, reconcilia-se com Deus e é redimido em sua afronta, mas carregará consigo, pela eternidade, a insatisfação. Sob o ângulo Iluminista, a busca da verdade, do conhecimento dignifica o homem. Trata-se de um busca nobre que aproxima o homem de Deus e torna-o o Iniciado, o Iluminado.
A insatisfação, resultado da jornada fáustica, talvez seja um dos principais aspectos que torna o mito do Fausto, por excelência, o mito do homem ocidental contemporâneo. A fome de/pelo conhecimento, a busca pelo significado da vida, o anseio em tocar e compreender o mistério tornam-no um mito vivo e atuante no subconsciente ocidental.
Na literatura modernista, o mito de Fausto ressurge prenhe das contradições características de uma sociedade tecnologicamente avançada, mas psicologicamente fragmentada e tomada pelo senso de vazio. O homem ocidental não pertence a lugar nenhum(Não sou brasileiro,Não sou estrangeiro.Não sou de nenhum lugar,Sou de lugar nenhum...Nenhuma pátria me pariu.Eu não tô nem aí.Eu não tô nem aqui.Eu não sou daqui, eu não dali, eu não sou de lugar nenhum - Titãs), seu ego-persona caiu, espatifou-se, e nenhuma cola ideológica conseguirá esconder as marcas da fragmentação. Vários autores modernistas reconstruíram, em bases contemporâneas, o mito do Fausto, reescreveram, em nova formatação, o drama daquele que quis equiparar-se a Deus. Além de Gertrude Stein (Doctor Faustus Lights the Light, 1936), Paul Valéry (Mon Faust, 1946) e Thomas Mann (Doktor Faustus, 1947), Fernando Pessoa foi um dos que tomou a si esta tarefa.
O livro Primeiro Fausto, da Iluminuras, é o resultado do trabalho do falecido professor Duílio Colombini. Em suas pesquisas, que incluíram visitas diárias ao acervo do poeta durante três meses, e em suas análises desse material, Colombini revê e amplia um estudo anterior feito pelo Sr. Eduardo Freitas da Costa, o qual resultou na primeira versão dessa obra pessoana.
Como o próprio Colombini reconhece nesta introdução, não foi um trabalho fácil dada a quantidade de material relativo à obra, mas deixados sem identificação ou não datados pelo poeta. Havia também muito material escrito à mão e com seqüências, às vezes, ilegíveis. Ou seja: Não havia nada organizado em definitivo pelo poeta. Em razão disso e por respeito à produção poética, Colombini apresenta sua versão do Fausto pessoano com lacunas marcadas por colchetes ou coloca entre parênteses dúvidas de sua própria leitura. É um trabalho de pesquisa eivado de notas que, se por um lado poderia deixar o leitor um pouco cansado, por outro confirma a fidelidade do pesquisador ao material pesquisado e demonstra, aos aficcionados por Fernando Pessoa, a intensidade e a multiplicidade de sua produção poética.
O Primeiro Fausto é um texto dramático-poético no qual o poeta português aplica o conceito de teatro estático à semelhança do que fez em O Marinheiro. Sobre o conteúdo da obra, diz Colombini: "O cerne dos escritos que nos vieram ter às mãos reside, a meu ver, numa torturante inquirição sobre a existência (entendida como o estar aqui e o relacionar-se com pessoas e coisas da realidade física e social) e a essência (natureza íntima e abstrata de tudo que existe no universo). Nisso consiste sua unidade." p. 17.
No levantamento do material, Colombini percebe que Pessoa chegou a pensar em escrever três Faustos. Foi encontrado, pelo pesquisador, um 'Plano dos 3 Faustos' com o seguinte esquema:
"I - Oposição entre a Inteligência e a Vida.
II - Oposição entre o Desejo e a Realidade
III - Oposição entre Não-Ser e Ser
a Inteligência busca compreender
O Desejo busca possuir (compreender de perto)
O Não-Ser busca o Ser".
No entanto, no trabalho de análise, Colombini percebe a insuficiência de material para a execução de tal plano. Conclui-se que Fernando Pessoa não teve tempo de finalizar o projeto conforme esboçado. Mais ainda: no rastreamento feito, o pesquisador depara-se com 4 planos para aquilo que seria o texto poético-dramático denominado Primeiro Fausto, mas um deles é excluído pelo próprio Pessoa. Vê-se que à unidade temática geral, acima descrita, não corresponde uma unidade estrutural definitiva.
Analisando o material encontrado e confrontando-o com as possibilidades de planos da obra aventados por Pessoa, o professor Colombini organiza, então, os textos dividindo-os em cinco atos. O primeiro deles trata da consciência do mistério do mundo e nele é possível perceber uma sensação de correspondência entre o mundo material e outras realidades mais profundas. Percebe-se também, neste ato, que a alma de Fausto é percorrida por um tremor metafísico que a deixa aterrorizada diante de sua impotência em relação ao segredo inatingível que começa a vislumbrar. perceber esse segredo, essa alma do Universo, incluir refletir sobre a essência de tudo, dos seres, de Deus e do Absoluto. Isso produz em Fausto um sentimento misto de orgulho por ter penetrado além das aparências e de dor por compreender que o mistério só se aprofunda, pairando para além do Pensamento.
O segundo ato é formado por textos que tratam da busca da Imortalidade e que, mais especificamente, discorrem sobre o horror à morte. Entretanto, Fausto vislumbra nessa Imortalidade um absurdo maior e um Nada mais amplo.
A temática do amor é o foco do terceiro ato. Nele Fausto enfrenta a desilusão amorosa posto que o amor é uma coisa incompreensível e que está afastado dele por um abismo profundo. Esse abismo, conclui Fausto, é, em verdade, o abismo que existe entre ele (Fausto) e si mesmo. Mais ainda: tal abismo estende-se para além do ser amado, incluindo nele a humanidade, o horror metafísico do contato carnal, expressão física do Mistério consubstanciado, e o horror físico da relação amorosa no resguardo da interioridade do corpo e da alma (p. 30).
A tentativa de dissolver a vida na ação intensa e o desejo de diluir a consciência da frustração existencial e metafísica na sonolência do corpo e do espírito marcam o quarto ato. Porém tudo conduz ao malogro.
Essa caminhada, até agora empreendida pelo protagonista, desemboca num imenso vazio universal (quinto ato). Por isso, Fausto aspira ardentemente à Morte em cujos braços deseja adormecer, sem sonos, sem sonhos e sem jamais despertar.Colombini, elege como epílogo, um texto no qual a Morte é apresentada não como porFernanda Meireles, Juiz de Fora, ag de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Monólogo nas Trevas - do Fausto pessoano

De qualquer modo todo escuridão
Eu sou supremo. Sou o Cristo negro.
O que não crê, nem ama - o que só sabe
O mistério tornado carne.

Há um orgulho atro que me diz
Que sou Deus inconsciençando-me
Para humano; sou mais real que o mundo;
Por isso odeio-lhe a existência enorme,
O seu amontoar de cousas vistas.
como um santo detesta / /
Odeio o mundo, porque o que eu sou
E me não sei sentir o que sou, conhece-o
Por não real e não ali.

Por isso odeio-o
Seja eu o destruidor! Seja eu Deus-ira!

sábado, 1 de agosto de 2009

outro trecho do Fausto - F. Pessoa

Tudo é mistério e o mistério é tudo.

Tudo é mais que ilusão; o próprio sonho
Do universo transcende-se a si mesmo
E a compreensão, ao penetrar
Escuramente a (casca) da ilusão,
Fica sempre aquém mesmo de ver bem
O quanto fitando é ilusão o sonho,
E quanto o próprio pensamento fundo
Se ilude na desilusão falaz
E no desiludir-se dele mesmo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O primeiro Fausto - trechos

Como da circunferência para o centro
(Não .........................................
é o mesmo. - Do centro p'ra o espaço
Real ou suposto, nessa circunferência
(...) em outros sóis e outros sistemas.
No centro de sóis mais interiores
( O centro de cuja circunferência
Eu via em infinito para dentro
Não para fora como infinito nesse)
E o nosso mundo com seu Deus nele
Eraum mero satélite
De um sol de (superiores) sistemas
Infinito interior no interior!
Pavorosa Agonia do Profundo !
Vacuidade e realidade negra
De Tudo!

a máquina de escrever


O primeiro Fausto - trechos

Não descreio de Deus, passei p'ra além.
Um dia meditando


Uma idéia (espontânea) e horrorosa
Como um vulto supremo em ter vulto
Surgiu no fundo do meu pensamento...
C0m a vista confrangida, e o medo
Vestindo-a, e
Apareceu-me Deus em esqueleto...
Tendo (desaparecido) seu corpo ideal
Não de (...) só, (de) inatingível,
Mas (nesse) de mais do que inatingível,

Até ao fundo do seu ser abstrato
O meu ser despi, e eu vi o / /
Esqueeleto / / do Mistério...
O Inferno tomou forma dentro de mim...
Ah, inda hoje, se relembro, sinto
Como (um nada) no lugar, um pavor negro
Não em mim, mas em todo o Universo,
Um arrepio pelas estrelas fora,
E um (...) horror arreapnahndo os céus
Como a uma pele que tem medo...
.............. F. Pessoa
(Trechos entre parênteses ou entre colchetes se devem ao trabalho de decifração dos textos pessoanos, pois, dada a rapidez da escrita, muitos termos ficaram ilegíveis.)

O primeiro Fausto - trechos

Como, banido, ó arqueiro Philoctetes,
Sou só na alma porque vi o abismo.

Excluso eterno
A vida pávida que cismo.

Sou morto, porque sei que o infinito
É limitado, e assim Deus morre em mim.

Deus sabe que é uno, um e infinito,
Mas eu sei que Deus, sendo-o, não é.
Mais longe que Deus vai meu ser proscrito.
................................ F. Pessoa

Pessoa e Khayyam


Ontem comprei um livro, na verdade, trata-se de um trabalho acadêmico publicado e que versa sobre as influências do poeta astrônomo Omar Khayyam na obra de F. Pessoa. A autora, Márcia Manir Miguel Feitosa, mostra como o leitor de Pessoa pode flagrar, em diferentes pontos da sua obra, traços do Ruba'iyat. O livro de Márcia contribui para mostrar a pluralidade dialógica e a inteligência do grande poeta português, pois na sua obra não há apenas a menção ao poeta persa, mas também produçõoes líricas influenciadas pela métrica e pelo ideário característicos do Ruba'iyat. Para quem é, como eu, apaixonada por Pessoa a leitura só aumenta nosso espanto e nossa admiração.

Fernanda Meireles, Juiz de Fora, jul 2009

terça-feira, 28 de julho de 2009

pessoa e crowley - grande encontro

Pessoa e Crowley em Lisboa -
podia ser uma cena para
'O dia em que a Terra parou'.
Grande Pessoa,
por onde vc vagou
meus passos tímidos
assemelham-se ao engatinhar das crianças
ou aos passos trôpegos de bêbados perdidos.
Tua clareza é sublime.
Fernanda Meireles, Juiz de Fora, jul. 2009

Não sei quantas almas tenho. F. Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu