domingo, 29 de maio de 2011

Os murmúrios do silêncio

                                                                                                               (do José Castello)

       Viajei muito a trabalho, andei cansado, e na semana passada, precisando respirar, desapareci deste blog. Foi uma oportunidade para ficar um pouco em silêncio. Mais ainda: uma chance para refletir sobre o valor do silêncio na literatura. Sempre que falamos de literatura, pensamos nas palavras. Mas sem o espaço entre elas (as pausas de uma partitura musical), se a respiração dos parágrafos (o oxigênio que nos mantém vivos), sem a ajuda do silêncio, é muito difícil escrever.
              Poetas, mais do que ninguém, sabem disso. Penso logo em Vinicius de Moraes, que está sempre a meu lado, um fantasma benigno que nunca me abandona. E em uma de suas letras de música, "A mais dolorosa das histórias", escrita para uma melodia (ou a partir de uma melodia, não sei dizer) de Claudio Santoro. É um pequeno poema de amor, 14 versos singelos, que dormem (em silêncio) no interior de sua Poesia Completa. Quase ninguém os ouve, o que não os impede de existir.
             Três versos, bem simples, com a desafetação que Vinicius tanto cultivou, me orientam: "Oh, silenciai/ Vós que assim vos agitais/ Perdidamente em vão". Podiam ser escritos pelos poetas de hoje, poetas do atordoante século 21, dentro do qual (como em uma carruagem desgovernada) nos agitamos, falamos e escrevemos sem parar. E no qual o silêncio é visto com suspeita, como um renúncia, um fuga medrosa, ou omissão imperdoável.
             No ritmo louco da web, no grande abismo de janelas que se descerram na TV, no bombardeio contínuo da publicidade e do marketing, o silêncio parece obsceno, porque gratuito. A agitação, ao contrário, é vista como produtiva; consideramos, em geral, que as pessoas agitadas são mais responsáveis e dinâmicas, pessoas decididas e donas de si, que não perdem tempo com o improdutivo. Silenciar seria, assim, jogar o tempo fora. Mas é?
               Como um detetive desprovido de um crime, sem saber por onde avanço e por que avanço, afasto-me um pouco de Vinicius para folhear a poesia de Cecília Meirelles, poeta um tanto esquecida _ que eu mesmo, admito, tantas vezes esqueço. Agarro-me a Cecília em busca de um pouco mais de ar. Também sem saber por que, detenho-me em "Sobriedade", breve poema de Mar absoluto. E novamente em três versos, só três versos (para que mais?), que me acolhem, encontro um ponto de respiração.
              Escreve Cecília: "Que coisa tênue, a minha vida, que conversa apenas com o mar,/ e se contenta com um sopro sem promessa,/ que voa sem querer das ondas para as nuvens". Às vezes, como Cecília, sinto vontade de sentar-me diante do mar imenso (ela diz: "absoluto") para simplesmente calar. Não para fugir, não para ausentar-me, ou para me omitir, mas para respirar. As pausas... vivemos em um mundo sem pausas e isso asfixia! Mas em Curitiba, no topo da montanha, estou bem longe de meu mar. Posso, contudo, imaginá-lo, um mar curitibano _ como o mar paraguaio entrevisto, um dia, por Wilson Bueno.
           A conversa (à moda de Cecília) que eu teria com esse mar seria, ela também, silenciosa. Como resposta, eu teria também um "sopro sem promessa". Só o silêncio, envolto em golfadas de ar, embrulhado em maresia, cortado por aves (silenciosas) que sobrevoam. Com seus vôos, elas escrevem alguma coisa que não sei ler. Visto de longe, sentado diante de meu mar inexistente, talvez eu parecesse apático, ou indiferente, ou deprimido. É o que, em geral, pensamos da sobriedade: que ela é desinteresse e pose. Coisa de esnobes, ou de apáticos. Mas não: ando precisando desse recolhimento, e foi talvez por isso que me silenciei ao longo de toda uma semana.
              Digo mais: silenciar é ainda uma maneira de escrever ou, pelo menos, de preparar-se para a escrita. Porque das palavras um escritor não se livra, mesmo que quisesse. Eu não quero. No mesmo poema, Cecília descreve ainda: "Perguntas seculares se levantavam no meu coração:/ última planta dos desertos, voz do Enigma.../ Ai de mim!" No silêncio, em vez de responder por responder, cedemos espaço para as perguntas.
             O silêncio não é um embotamento, mas uma escuta. Não é a ausência de palavras, mas um momento em que elas, enfim, se encolhem, talvez para dormir. Escritores precisam do silêncio como os alpinistas, que se lançam com fúria nos picos do Himalaia, precisam de ar. A beleza está ali, bem diante deles, e quase os faz esquecer disso. Mas, mesmo diante do sublime, eles continuam a ser homens comuns. Seus pulmões continuam a trabalhar.
           Penso, ainda, que para ler _ pelo menos na clássica atitude da leitura silenciosa _ precisamos de silêncio, ou, pelo menos, de introspecção, que é uma espécie de silêncio do corpo. A mente se enrola sobre si mesma, vedando a passagem do mundo exterior. Ela se derrama sobre as páginas do livro e aquele limite branco lhe basta. Não precisa de mais nada. Também ler é aprender a calar.

Pescado em: http://oglobo.globo.com/blogs/literatura/

Um bom motivo pra se deixar queimar uma fornada de pão de queijo

            Embora o título seja bem prosaico, deixar queimar uma fornada de pão de queijo é um sacrilégio para um mineiro (mesmo para aqueles adotados como eu). O motivo deve ser deveras importante pra justificar tal esquecimento (Pô vc deixou queimar, não sentiu nem o cheiro?). Pois é... não senti nem o cheiro. Nem do café ao lado q veio quente e fresco e voltou frio pra cozinha. Mas era um senhor motivo: passo pra vcs as fotos q minha irmã fez em Dublin numa visita a uma exposição que celebra o grande poeta irlandês, pai da  poesia irlandesa moderna, William Butler Yeats.






Eu fiquei de cá, salivando igual a um cachorrinho do Pavlov, enquanto o pão de queijo queimava e o café esfriava. Eu juro: um dia, eu pego minha mochila e vou me embora para Pasárgada.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Memórias de menina

         Hoje vou fazer um post rápido porque preciso dormir. Trabalhei o dia inteiro e ainda tive uma reunião pedagógica até 21:30. Mas como ficar sem postar me incomoda, lembrei-me da recente leitura do Olhinhos de Gato da Cecília Meireles e de uma ilustração q pesquei na MininaMá feita sobre um dos poemas dela q era um dos meus preferidos na infância: O vestido de Laura.

       Aos 8 anos, eu sonhava em ter um vestido desses. Imaginava mais, imagina um outro todo feito de fundo de mar, com um babado de peixes, outro de conchas e o último de estrelas-do-mar. E eu sonhava estes vestidos vivos, com borboletas ariscas e água fresca e calma. Minha irmã, quando pequena, pagou o pato por mim. Um dia encontrei, numa loja de trecidos, um pano estampado de fundo de mar. É lógico q ele virou um vestido para ela.
      Mas o poema da Cecília constava da lista de textos do livro da escola. Livro q trazia um outro texto q me marcou: Asa curta. Acho q só agora minha asa está crescendo... Ou ela sempre foi comprida e eu cismava em não ver. Não importa mais: importam mesmo são os ventos por onde ando planando e com os quais tenho ido onde nunca pensei. Vida de patinho feio é assim: demora pra encontrar seu bando de cisnes negros.
escritores clarice 558x1024 [Leia Mais] Por um mundo com mais livros e leitores

domingo, 22 de maio de 2011

Outro texto excelente do Bráulio Tavares

Sete tipos de ambiguidade” (21.5.2011)

               Certa tarde, um casal chega a uma livraria e desce ao porão, onde há estantes cheias de coleções encadernadas. Ali, só um velho funcionário à mesa, e um adolescente folheando um livro caro, que ele não tem dinheiro para comprar, e que o velho lhe cede para ler, algumas páginas por dia. O velho atende o casal; o homem explica que veio comprar uma grande quantidade de livros. Que livros?, pergunta o velho. Ele hesita e acaba lembrando o nome de um autor: “Charles Dickens! Já li alguma coisa dele e gostei”. Diz ao velho que gosta de livros, mas trabalha desde a infância, nunca teve tempo para ler. Agora está bem de vida, tem dinheiro, e acha que precisa botar a leitura em dia. Comprou uma estante e botou na sala. Quer as obras completas de Dickens e... não consegue lembrar nenhum outro autor.
            O velho pede ao adolescente (que é freguês da livraria, conhece tudo ali) que ajude o cavalheiro. O garoto, feliz de poder ajudar, começa a dar palpites: “O sr. gosta de Dickens? Pois leve esse cara aqui: George Meredith! Muito bom!”. A esposa do cara lembra um livro que gostou: Jane Eyre. O rapaz mostra ao cliente as obras completas das irmãs Bronte. O homem manuseia, elogia as encadernações. Diz que quer levar muitos livros, pois acabou comprando uma estante enorme e tem que enchê-la toda. Vai separando coleções: Mark Twain, Thackeray, Jane Austen... No final pergunta ao adolescente que livro era aquele que ele lia. O rapaz: “Sete Tipos de Ambiguidade, de William Empson. Um livro de filosofia, muito bom! Mas custa muito caro, não posso comprar”. O garoto se despede, vai embora. O homem manda o velho empilhar as coleções que escolheu, dezenas de livros. Na hora de pagar, pede para ver o livro que o rapaz lia. O velho mostra. Ele diz: “Será que o garoto vai ter dinheiro para comprar esse livro?” O velho: “Não, não vai poder, é uma edição cara”. O cara diz: “Nesse caso, levo esse também.” Paga, vai embora com a esposa e o conto acaba aí.

       É um conto de Shirley Jackson (publicado em 1948) e eu acabei de lê-lo agora, com um calafrio final de terror. Vejam o que é a literatura. Se fosse um conto meu, o cara comprava o livro ao velho e deixava de presente para o rapaz, como incentivo. O conto teria uma mensagem humanista e todo mundo ficaria feliz, principalmente eu mesmo. Mas Shirley Jackson me jogou num universo paralelo de terror, onde os monstros são criaturas que nunca leram, nunca puderam ler, tiveram que se matar de trabalhar desde cedo. Quando querem ler, não adianta: estão ricos e vazios. Gastam tudo quanto têm para tapar esse vazio, com livros que não lerão porque é tarde demais. A história é norte-americana mas me jogou num Brasil de gente pobre que não consegue ler porque só trabalha, trabalha. E quando um desses, que enriqueceu trabalhando, é capaz de comprar livrarias inteiras, não é capaz de ler um livro. Não é capaz sequer de perceber a existência de uma pessoa que está ali, do seu lado.

Pescado no Mundo Fantasmo: http://mundofantasmo.blogspot.com/

Jorge Drexler

 A versão de High and Dry

http://www.youtube.com/watch?v=pGLGQndtfkU

pescado na Ainda MininaMá: http://patriciapirota.blogspot.com/2011/05/post-its-compartilhando-anotacoes.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+mininama+%28Ainda+MininaM%C3%A1.%29

Diário de Bordo

         Tem uma frase do GRosa que é assim: "O rio não quer chegar, mas ficar largo e profundo". Realmente, eu não quero chegar nunca. Ontem, foi um dia em que alarguei minhas margens e aprofundei meu leito. Ontem fui ao Rio ver principalmente a exposição  "Fernando Pessoa, Plural como o Universo", no Centro Cultural dos Correios e visitar também a Exposição da artista Laurie Anderson, "I in U, Eu em Tu",  no CCBB.
       Mas começamos o dia visitando o Forte de Copacabana que sediava o evento Conexão Leitura com entrevista e sessão de autógrafos com o mineiro Júlio Emílo Brás:
       Numa manhã fresca pra um carioca, mas quente pra um mineiro, o mar estava para surfista e batia forte nas pedras. Depois fomos almoçar no Centro Histórico, com direito a uma escapada para uma daquelas livrarias pequenas e aconchegantes  que pululam por lá. Estantes abarrotadas, pilhas de livros que crescem pelo chão do mezanino em meio a poltronas velhas onde vc se senta e pode ficar horas batendo papo com o proprietário que possui a mesma paixão q vc: livros. (Bem diferentes daqueles funcionários de mega bookstore q só sabem vomitar em vc os últimos lançamentos da grande indústria livreira. "A senhora não gosta de A Cabana, não?" Argh.).
          Dessa vez, conheci a livraria Folha Seca, que tb é uma pequena editora, especializada em literatura e cultura africana e brasileira, samba e futebol. O proprietário me deu um Mapa do Centro Histórico do Rio com os endereços de todas as livrarias e points culturais. Eu trouxe um pra Ju Gervason tb porque eu não quero ir pro inferno,  não quero ter sentimento de culpa e cartão de crédito estourado, não quero ter crise de compulsão sozinha. Afinal, amigos são para essas coisas.
          Depois do almoço, fomos à sobremesa e ao cafezinho na Confeitaria Colombo. Para quem é apaixonado por literatura,  o local tem uma aura maior ainda porque vc se lembra de autores e obras e, se deixar, um cafezinho é pouco.

            Porém, eu não podia ficar ali na tortallete de maçã falando do Machado. Eu tinha que ver o FPessoa. Oh, my god, que tortura (rsrsrs). Então, vamos. Se é pra sofrer de paixão, que seja agora então.
           A exposição "Fernando Pessoa, Plural como o Universo" é uma exposição interativa, com elementos tecnológicos (cabines para os principais heterônimos com projeção animada de poemas, um grande pêndulo que apontava para um tanque de areia onde alguns de seus escritos místicos eram projetados (!!!), um grande livro virtual numa imensa mesa de madeira que, a um toque do dedo, folheava as páginas, um labirinto de espelhos com imagens dele q se misturam às suas quando vc entra lá... o diabo em bits, enfim), mas como eu como sou de "amor à moda antiga", eu gostei mesmo foi de ver os exemplares das revistas em que ele publicou, as primeiras edições de seus escritos (a primeira edição de A Mensagem) e as caricaturas do Almada Negreiros. Deliciem-se comigo:
                                   

                                               

                                        
                              ("Antinous", a sua ausência grita na minha estante.)



                                  
                                                           (Edição histórica)



             Depois disso tudo, ainda cravei espaço na alma para ver a exposição "I in U/Eu em Tu" da Laurie Anderson no CCBB. Um evento de performances com muita tecnologia, misturando som, música, projeção de imagens, pintura, poesia, dança,fotografia,  instalações... (As fotos são retiradas da net porque era proibido fotografar lá). Só para vcs terem uma idéia:

            Poesia pelas paredes:
              

        Mesa pra vc ouvir música através dos ossos:
                      
         
           Travesseiros sonoros pra sonhar (ou ter pesadelos):
               

      Performances de dança e música pra vc acompanhar com olhos e ouvidos:
            

     O violino q se toca sozinho:
              

                   Foi um sábado de me deixar exausta e plena. O corpo adormeceu em paz. A alma amanheceu leve: rio mais largo e mais profundo, correndo calmo e fresco nesta manhã morna de domingo.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

pra dilma, pros governadores e prefeitos, pro brasil todo

Depoimento da professora Amanda Gurgel. Um país que não valoriza seus professores, não é um país economicamente viável.


http://www.youtube.com/watch?v=yFkt0O7lceA&feature=related

segunda-feira, 16 de maio de 2011

pro josé

          E tem aquele sujeito q vai passar a vida arrumando formas de ter mais dinheiro além do seu já suficiente salário mensal. É uma obra aqui, uma comissão num negócio ali, uma venda de espaço publicitário acolá. Isso tudo porque ele precisa provar pra si mesmo que há mais ou menos 30 anos não tinha condições de fazer a mudança q deveria ter feito em sua vida.
       Hoje ele tem mulher e familiares para cuidar e, com isso, prova também que é um excelente sujeito, moralmente inquestionável. Homem exemplar e, além de tudo, preocupado com o lugar onde mora.
        Mas e esse peso na consciência que sempre que se deixa livre o pensamento o toma de assalto? Essa sombra que, juntamente com os anos, vai aumentando uma conta q ele não sabe pra quem tem de pagar?
         Esse é o resultado da vontade fraca porque, a cada dia q passa, ele sabe q não ter condições era só uma justificativa pro seu medo. E, mais ainda, ele sabe q justificativas é uma coisa de fracos. Condições são construídas a ferro, se preciso. E se tiver um filho, o q vai ensinar a ele?
       Podia começar ensinando a mandar o pai à merda. Seria uma coisa honesta consigo e uma prova de grande amor paterno. Mas ele será capaz de destruir a imagem q construiu de si e se mostar aos outros como ele realmente consegue se ver?  Afinal a verdade é uma das suas bandeiras. Ele é defensor da ética. Oh, o perigo de se querer colocar como baluarte de princípios é ter q esconder algumas coisinhas debaixo do tapete.
       Como dizia  Drummond, e agora José? O tempo está passando, José... até quando vc vai fugir de si mesmo?
       As coisas aqui embaixo nunca saem de graça. Algumas custam até bem caro.
       Chutar tampinhas, nesses casos, não é uma boa estratégia. Essas tampinhas são especiais: têm um efeito bumerang e (detalhe) voltam sempre maiores e mais pesadas sobre nossas cabeças.

domingo, 15 de maio de 2011

xilogravuras do Monte Fuji



DAVE BRUBECK & KATSUSHIKA HOKUSAI

Música Fujiyama, do jazzman Dave Brubeck, sobre edição de Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji, xilogravuras de Katsushika Hokusai (1760-1849).


http://www.youtube.com/watch?v=O1X8CvYAK-E   

pescado no Umbigo do Lago, http://umbigodolago.blogspot.com/
mati sureba
nishaku bakarino akarussa no
nakawo yoguireru shiroki ga no ari

quando acendi o fósforo
uma mariposa branca
atravessou a sombra da mão

Takuboku Ishikawa



sábado, 14 de maio de 2011

curando um resfriado

    De cama, curando-me de um resfriado, relendo Zanoni... As provas porque passam os espíritos jovens e idealistas, aqueles cujos olhos marcados pela Arte colorem tudo à volta. No final, o silêncio.

                             

terça-feira, 10 de maio de 2011

poesia brasileira contemporânea

A coleção de poesia contemporânea da Companhia das Letras atualmente conta com seis autores: Fabrício Corsaletti, Alberto Martins, Antonio Fernando de Franceschi, José Almino, Zulmira Ribeiro Tavares e Fernando Moreira Salles. Para que você conheça um pouco mais do trabalho deles, a editora fez um vídeo em que cada um lê um verso de sua obra:


http://www.blogdacompanhia.com.br/2011/05/poesia-contemporanea/

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sociedade alternativa

       Aproveitando o efeito Flauta Mágica vou fazer aqui um post há muito adiado. Acho q desde a criação do blog. Por algumas razões pessoais e outras mesmo por eu ser uma pessoa bastante enjoada, quando se trata de posturas ideológicas, tenho adiado este momento de falar do Raul. Mas o Raul mesmo não tem nada com isso. Ele escancarou numa entrevista q não queria ser guru de nenhuma sociedade, de ninguém.
      Entretanto, as pessoas não entenderam o recado e a coisa virou culto quase místico. Raul era um homem com um recado a dar, um belo recado, diga-se de passagem, mas humano como qqr um de nós. Virou raulseixismo. Eu fui casada com um raulseixista, conheço outros tantos, e posso afirmar q a maioria canta as músicas, mas não interpreta as letras, não vai atrás do conhecimento necessário para entendê-las adequadamente. Essa maioria não rastreia o conhecimento q levou à origem das letras, não busca o conhecimento q consumiu Raul. São fãs e fãs não pensam, estão ali para idolatrar. E idolatrar é matar.
         O "Faze o q tu queres" virou um slogan de adolescente tardio ou daqueles q se negam a crescer. A parte do conhecer a si mesmo para saber quem tu és verdadeiramente, a parte de matar o ego para q o self se manifeste e, através dele, vc consiga conhecer de fato, isso tudo não passa nem por perto...
        E aí vc conhece um cara q tem banda q toca Raul e o cara controla o q a mulher lê! Diz que ela está muito nova pra botar a mão nos textos-base. Oh, my god!! A minha beleza cansa...
       E tem alguns q entram pra sociedades (místicas, ocultas, ou o termo q vc achar melhor) mas q são pessoas com grandes complexos de inferioridade. E aí acabam sucumbindo à projeção do ego, ficam inflados. Se esquecem de q aqui somos túmulos.
         Outros estão lá faz anos e não atualizam as leituras e vc vê o cara, hippie em 60, depois guerrilheiro, depois ocultista, completamente mergulhado em se fazer respeitar como ícone de uma geração q tentou mudar o mundo. Cara pálida, eu não sou culpada por sua luta ter dado errado não!! E o cara quer agir hoje  como agiam nos treinamentos de luta armada. Pô, até o marxismo precisa de revisão. Aliás, como bem argumenta Mircea Eliade, o marxismo é, por excelência, uma proposta cristã salvacionista (criada por um judeu): o proletariado é o povo de Deus, o intelectual é o salvador, e a sociedade sem classes é o paraíso prometido. Fui falar isso para um professor de História e quase apanhei. (A minha atitude foi bem 'mosca na sopa'. Eu adoro fazer isso!!)
        Voltando ao Raul. E o show revival parece um culto regado a muuuuiiiiita cerveja com todos entoando as músicas completamente bêbados sem saber direito o q cantam. Eu tenho dito muito: Pára o mundo que eu quero descer. É a mesma coisa com o Crowley e o boca aberta do Ozzy Osbourne que cheira até carreira de formiga e o cérebro não dá conta nem de entender o controle remoto da tv (eu falo porque assisti ao seriado protagonizado por sua família). E assim vamos, de guru em guru, quando, na verdade, não tem q haver guru nenhum!
         Essa é nossa sociedade de massas com produtos culturais facilmente digeríveis para todos os gostos. E no final eu é que fico com fama de exigente demais. E tudo o q o Raul não queria era virar um produto cultural facilmente digerível. Sempre fez música para q as pessoas pudessem pensar. Era sua forma de exercer a filosofia. Mas pensar é complicado, não temos tempo e o cara é o cara, ou seja, ele já pensou por mim.
      Raul não queria ser prefeito, mas se deixar vão elegê-lo pra papa.
      Raul vc devia ter feito como Sinatra, comprado  um carro e caído fora, que essa vida de carpinteiro do universo nunca termina bem. Veja Dom Quixote, o cavaleiro andante, ou Jesus Cristo, morto dependurado numa cruz...

A preferida de todas: "O Segredo da Luz"
http://www.youtube.com/watch?v=iMtY_Sx3oNo

E a segunda, q tem tudo pra ser trilha sonora dest blog: "Metrô linha 743" (em animação, é fantástica)
http://www.youtube.com/watch?v=MMlLVomYpKE

domingo, 8 de maio de 2011

A Flauta Mágica nas mãos de Ingmar Bergman

                                            
               Acabei de assistir à versão de Bergman da obra de Mozart. Dois gênios comungando num só propósito. Há muito um filme não tinha tanto a me dizer, de me deixar em lágrimas, de me encontrar em algumas cenas, de me reencontrar (principalmente), compreendendo curvas e retas do meu caminho. Foi mesmo uma saudável crueldade de mim para comigo, um julgamento auto-imposto (como na obra), necessário à clareza que deixa firmes e fortes os passos seguintes.
               A iniciação que requer constância, silêncio e pureza.
              O caminho não é reto, nem plano.
              A Thelema  é forte e leve, mas, às vezes, dói como um transpassar de uma espada.
              O Amor é a Lei, mas o Amor sob Vontade.
                   

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Obama e Osama: diferenças fonéticas, políticas, econômicas e culturais.

Manchete da Folha de São Paulo de sexta:

Cortamos a cabeça da Al Qaeda, diz Obama ao condecorar militares


Perguntinha idiota: alguém já contou para ele a história da Hidra de Lerna?

O Ovo da Serpente


Sinopse do "Adoro cinema":
              "Abel Rosenberg, um trapezista judeu desempregado, está em Berlim em Novembro de 1923 para tentar descobrir a razão do suicídio de seu irmão. A Alemanha está em crise na república de Waimar em razão da primeira guerra mundial. O povo vive em constantes crises existenciais, econômicas e sociais e o poder político está em franco declínio e os cidadãos vivem sem uma perspectiva de futuro. Neste ambiente de caos o “ovo da serpente” encontra ambiente propício para ser chocado e eclodir com força e mudar os destinos do mundo e da Alemanha. Abel encontra abrigo em um apartamento de um cientista que também lhe oferece um emprego. Sua cunhada vive como corista em uma boate de quinta categoria e mora em uma pensão e ambos acabam se relacionando nesta semana tumultuada. A solidão de ambos, a miséria em que vivem e o futuro sem futuro os colocam numa situação constrangedora de viver um caso tumultuado. No trabalho Abel desconfia que alguma coisa está errada e, ao investigar o tal cientista, descobre que ele está fazendo experiências humanas em nome da ciência médica e da supremacia ariana e encontra respostas para o suicídio do irmão.
           A fome, o desemprego, a superinflação e a violência urbana criam situações de desespero geral aumentando o descontentamento de uma nação criando assim um ambiente favorável para que Hitler encontre eco a sua megalomania de um poder absoluto e tirano. Acima de tudo, encontra um povo disposto a elevá-lo ao topo da hierarquia indiferente aos seus métodos racistas e cruéis. Um retrato fiel de uma Alemanha em crise e uma profunda reflexão sobre as origens do nazismo. O título do filme é uma síntese perfeita das condições que permitiu o surgimento de Hitler e seu regime nazista. Não é um filme para se assistir indiferente. "
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Trecho selecionado por mim:
A fala do cientista ao final, ao esclarecer ao protagonista Abel o que ele, confusamente, mas intuitivamente, havia percebido em sua estada em Berlim.:
"Destruir os arquivos da clínica seria uma decisão romântica. Daqui a alguns anos a Ciência pedirá os documentos e continuará as experiências em escala gigantesca. Hitler é um cabeça-de-vento e não tem capacidade intelectual e método. Ele não entende as forças tremendas que está prestes a invocar.
     Haverá uma revolução e o mundo se afundará em sangue e fogo. As crianças e adolescentes de hoje, em dez anos, formaram uma nova sociedade, inigualável em toda a história da humanidade.A velha sociedade  era baseada em idéias extremamente românticas sobre a bondade do homem. Era tudo complicado já que as idéias não correspondiam à reliadade. A nova sociedade será baseada numa avaliação realista do potencial e das limitações do homem. 
        O homem é uma deformação, uma perversidade da natureza. É aí que entram as nossas experiências. Lidamos com a construção básica e a remodelamos. Libertamos as forças produtivas e controlamos as destrutivas. Exterminamos o que é inferior e aumentamos o que é útil."
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Fato histórico frequentemente omitido: Hitler, na verdade, ser viu a propósitos de uma casta que, a princípio, duvidou de sua capacidade de aglomeração das massas. Ou seja: Um messias é sempre alguém a serviço. Ele mesmo não passa de uma pessoa substítuível, caso não satisfaça aos anseios que o sustentam.
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Outra cena que me marcou:
A personagem de Liv Ullmann assiste diariamente a missas católicas em busca de conforto. Ao final de uma delas procura o padre para se confessar e pede a ele uma oração. Pede mais ainda: pede perdão por uma culpa que carrega que, na verdade, não é dela. O padre então diz que Deus, às vezes, está tão distante dos homens que a única coisa a fazer é nos perdoarmos mutuamente. Então, ele a perdoa,  mas, em seguida, lhe perde perdão, por sua indiferença e apatia. Escancaradamente, um tapa na cara da Igreja Católica.
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Fica para pensarmos o papel e a força da ciência, que se autorga o direito de dizer o que é correto e o que é errado fundamentado em experiências científicas, das quais não se pode duvidar. Como se o discurso interpretativo dessas experiências não fosse feito pelo próprio homem, a "deformação, a perversidade da natureza".
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Fica ainda mais: Um mundo pautado só no conhecimento é um mundo perfeito? No racional puro não há medo, dor ou amor. Os sentimentos pertencem a outra esfera. É só aquilo que a mente calcula friamente como a realidade. Um homem completamente frio e racional é um psicopata. É este o ídolo que cultuamos vestido de ciência pura? A pureza da ciência, afirmo categoricamente, é algo muito questionável.
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Para finalizar e atualizar a leitura de Bergman, assistam a Gattaca.
(Num futuro no qual os seres humanos são criados geneticamente em laboratórios, as pessoas concebidas biologicamente são consideradas "inválidas".)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Flauta Mágica

         19:35, ouvindo  os cds da obra inciática de Mozart.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Objeto(sssssss) de desejo

         Eu sei q beira à compulsão, mas uma dessas aí abaixo é de me enlouquecer. Eu ainda chego lá. Minha casa que me aguarde! Isto é uma ameaça.
          Pra completar, o texto da Vanessa Bárbara (Companhia das Letras) sobre os DELICIOSOS problemas enfrentados por quem é apaixonado por livros. Daqueles que compram uma edição de Orgulho e Preconceito porque a capa dura em tecido italiano é linda e vai ficar divina na sala acompanhando a edição em box comemorativa dos 400 anos de Dom Quixote com direito às ilustrações originais. Afinal cada um enfeita a casa da maneira q melhor lhe aprouver...
         Ah, tem gente que já está fazendo estantes 'metonímicas',se assim posso chamar aqueles casos em que os livros já estão se tornando estantes, não é Ju Gervason? Porque agora pegar o Tolstói na estante pode ser pegar a própria estante...


A questão das estantes

Por Vanessa Barbara

         Sem querer desmerecer assuntos de interesse mais amplo, como o aquecimento global, a expansão inevitável do Universo, o fato de nascermos e morrermos sozinhos e a falta generalizada de sentido na vida, há que se refletir sobre um problema pouco discutido que atinge dez entre dez leitores destituídos do sobrenome Mindlin: a questão das estantes. É certo que o tópico perdeu parte de sua relevância com a popularização dos tablets,* mas não se pode negar que a falta de espaço para os livros continua a aterrorizar os patrícios, moradores de apartamentos com apenas dois dígitos de metros quadrados, e por vezes nem tão quadrados assim — há quinas arredondadas que prejudicam ainda mais a catalogação e organização dos itens domésticos.
            É algo que ninguém leva em consideração ao desposar um editor da Companhia das Letras, mas que devia constar do contrato pré-nupcial: como conciliar duas bibliotecas ambiciosas e prever um espaço extra para acomodar cerca de 25 lançamentos por mês, sendo que só em abril tivemos uma biografia do Borges com 672 páginas, um romance de Martin Amis com 528, um estudo sobre Rousseau de 600 e uma brochura sobre matemática de três centímetros de espessura, num total inacreditável de 7.628 páginas impressas. Em termos de espaço, são mais de 45 centímetros a serem liberados nas prateleiras. Isso sem contar as coletâneas do Don Martin e do Sherlock Holmes que chegam pelo correio, como se fôssemos um casal de latifundiários das estantes, sócios acionistas da Tok&Stok, zeladores da Biblioteca Nacional.
         Diante desse impasse imemorial, muita gente cai em desespero e toma medidas drásticas. O casal de tradutores-professores Caetano Galindo e Sandra Stroparo deixou de ler o romance 2666, de Roberto Bolaño, simplesmente porque não cabia dentro da casa. Embora eles tenham recorrido a novas prateleiras instaladas no quarto de dormir, bem em cima da cama, ela admite que o esquema não vai durar muito: “Há duas semanas comprei o livro do Huizinga. Veja só. Eu não presto mesmo.”
           O também tradutor Alexandre Barbosa de Souza é outra vítima do excesso de livros numa escassez de paredes. Após render-se à incômoda lógica da fila dupla — e até tripla, relegando a maioria dos livros ao ostracismo tátil e visual —, ele encontrou um jeito de se ater à fila única. Decidiu fixar um número médio entre 1.500 e 2 mil volumes (já chegou a ter 4 mil), que mantém através de um espartano sistema de “entra um e sai outro”. Por exemplo: um lançamento do Gay Talese só encontraria lugar na biblioteca se um Lehane ou um Nabokov saísse. “Mas há critérios”, ele expõe, gravemente. “Uma Aguilar ou Pléiade, por exemplo, exclui os volumes avulsos do autor; em suma, uma edição mais completa substitui uma mais singela. Mas, claro, tenho coisas que nunca sairão em novas edições e a maioria dos meus livros vem de sebo mesmo.”
       Talvez com a maturidade venha a coragem de adotar o sistema de exclusão, mas por enquanto o que vigora aqui em casa é o Deus-nos-acuda. Toda vez que chega uma leva de lançamentos — as caixas heroicamente trazidas com a ajuda de gente de fibra como o Arthur, do atendimento ao professor —, há uma operação de estica-e-empurra que demora alguns dias.
        Depois de muita deliberação, decidimos adotar um sistema peculiar e duvidoso. Aproveitamos as estantes de ferro que já ocupavam as paredes do escritório para eleger nelas a chamada “Estante A”, só com títulos de autores de estirpe, as obras de que mais gostamos ou que, por algum motivo, consultamos e relemos com mais frequência. Ali se encontra a seção Marx (Groucho e Karl), os ficcionistas de nossa predileção e os dicionários.
         Junto ao teto do escritório, nosso intrépido marceneiro Ulisses (não estou inventando) instalou duas compridas prateleiras que dão toda a volta no aposento, tornando viável o sonho da “Estante B”. Nela armazenamos os autores raramente lidos, os livros de que menos gostamos ou que consultamos só de vez em quando. Embora o critério pareça definitivo, é passível de discussões. Não raro, rotulamos uma obra por pura birra e despeito — por exemplo, Saramago um dia foi parar na Estante B. Não que desgostemos de sua escrita, muito pelo contrário — mas é que, na hora da arrumação, julgamos que ele já estava acostumado com honrarias e que sua presença na Estante A poderia torná-lo arrogante. Autores temporariamente de castigo também vão para a estante B, a fim de refletir sobre o que andam fazendo e talvez mudar os rumos de sua produção artística.
         Ambas as estantes seguem uma rigorosa, porém sofrida, ordem alfabética por sobrenome do autor, e quando digo “sofrida”, refiro-me à fileira que compreende Schnitzler, Schneiderman, Schwarcz, Schwarz. Outra dificuldade envolve os livros meramente afetivos, como o infantil Tungo-Tungo, consagrado na letra T, entre Tucídides e Turguêniev. E o que dizer de Mario Vargas Llosa? No V ou no L?
          Nos últimos tempos, tivemos que retirar os livros de arte das estantes oficiais e encaixotá-los no quarto dos fundos, diante da crise doméstica do fim de ano, quando os editores tradicionalmente fazem uma limpeza de suas mesas e trazem todo tipo de papel para casa. Há que se mencionar que temos uma estante na sala só de quadrinhos, que também já sofreu reveses com a superpopulação.
         Isso traz graves implicações no mundo literário. Sinto informá-los, por exemplo, que não temos mais espaço para autores com o sobrenome iniciado pela letra C. É lamentável, mas recomendamos ao sr. Coetzee que mude de nome, adote um pseudônimo diferente de Costello ou desista da literatura. João Paulo Cuenca e André Czarnobai já foram informados. Assim como o dono da casa, que se viu repentinamente impedido de publicar um romance. Na letra C não cabe nem mais um haicai.
      Por outro lado, o sobrenome S ainda tem vagas, sobretudo pelo downgrade do Saramago. E atenção, jovens romancistas: ainda não ocupamos a cozinha e a geladeira. Há esperanças.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

fim de semana

         Fim de semana com Lima Barreto. No sábado reli o Triste Fim de Policarpo Quaresma e no domingo o Diário do Hospício. No feriado anterior, li duas coletâneas de contos. Se pudesse dizer-lhe alguma coisa, diria para que não reencarnasse por aqui ainda porque ficaria espantado de descobrir como, apesar dos avanços tecnológicos e econômico-sociais, muitos traços culturais se mantêm firmes. Ou por outro lado, ele poderia ganhar bem trabalhando na imprensa novamente, só que como astrólogo, futurólogo, porque o olho dele é algo de se pasmar. Salve o Lima. Como disse um dos especialistas no documentário citado no post abaixo, lê-se Lima Barreto não para aprender português, mas para aprender a ser brasileiro.
                                         

domingo, 1 de maio de 2011