quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O Gabinete do Dr. Caligari

Um clássico do cinema: “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920), de Robert Wiene, considerado o melhor filme de horror do primeiros anos do cinema. Divirtam-se.

http://www.youtube.com/watch?v=ALqnSUMHPrA&feature=player_embedded

Compartilhando achados

A USP, através da sua biblioteca Brasiliana, está disponibilizando obras de literatura em formato digital. Acessem e  façam a festa. Abaixo, segue o link para baixar as edições da Revista Klaxon, berço do concretismo brasileiro:
http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/62 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Malas na mão

Tô de férias. Quero meus dias assim, bem no espírito do Piva abaixo: sapatos na mão  e pé na estrada. Terra... terra... quero terra. E uma estrada por onde caminhar descalça, livre, sem hora. Se possível debaixo de um fiapo de lua bem bonito, todo ornado de estrelas. O céu da Serra da Beleza, silencioso, denso, lindo. Hoje, é tudo que quero da vida.

eu caminho seguindo
o sol
sonhando saídas
definitivas da
cidade-sucata

isto é possível
num dia de
visceral beleza
quando o vento
feiticeiro
tocar o navio pirata
da alma
a quilômetros de alegria

domingo, 19 de dezembro de 2010

Visitas ao dicionário

pergamináceo

Datação:  1886
Acepções
■ adjetivo
1 que apresenta aspecto semelhante ao do pergaminho
2 que é feito de pergaminho

Etimologia: pergaminho sob a f. rad. pergamin- + -áceo adj.

     Parece nome de planta, mas é relativo ao pergaminho - pele de cabra preparada para servir de suporte à escrita.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Outro canto de Jorge Benjor - bem candomblé

Os Mentes Claras
Jorge Benjor

Hoje vai baixar
Vai baixar, vai baixar, vai baixar
 Hoje vai baixar Xangô
Vai baixar Rompe Mato
Vai baixar Ogun Nagô

Iara, Iara também vai baixar
Diana caçadora também
Janaina também vai baixar ahhh
Vovó Maria também

Mas só pode entrar na congada ahhh
Quem tem a cabeça feita
A mente, a mente clara ahhh
E muito boa fé

Um pedra rolante
Um espiritual pacificador
E no coração
Carinho e muito amor
oohhhh oohhhhhh

Hoje vai baixar Xangô
Vai baixar Rompe Mato
Vai baixar Ogun Nagô

Iara, Iara também vai baixar
Diana caçadora também
Janaina também vai baixar ahhh
Vovó Maria, Vovó Maria também

Mas só pode entrar na congada
Quem tem a cabeça feita
A mente, a mente clara ahhh
E muito boa fé
Um pedra rolante
Um espiritual pacificador
E no coração
Carinho e muito amor
oohhhh oohhhhhh

Hoje vai baixar
Hoje vai baixar
Vai baixar, vai baixar
Vai, vai vai vai vai vai vai vai vai vai vai

Hoje vai baixar
Hoje vai baixar
Hoje vai baixar
Vai, vai vai vai vai
Vai, vai vai vai vai Vai, vai vai vai vai...
Saravá, meu pai, saúde e felicidade pra todos.
Se quiser escutar:
http://www.youtube.com/watch?v=vyMa4xuw2qE

Uma canção do solar Jorge Benjor (essa é meu número)

Agora Ninguém Chora Mais
Jorge Ben Jor

 Chorava todo mundo
Mas agora ninguém chora mais
Chora mais, chora mais
Chorava todo mundo
Mas agora ninguém chora mais
Chora mais
ô, ô, ô, ô

Chorava mãe, chorava pai
Na hora da partida
Mas era uma beleza
Em vez de tristeza
Mas era uma beleza
Em vez de tristeza
ô, ô, ô, ô

Chorava mãe, chorava pai
Chorava todo mundo
Mas agora ninguém chora mais
Mas pois o menino voltou
Voltou homem, voltou doutor

Menino que é bom não cai
Pois já nasceu com a estrela
E sempre a mente sã
Menino que é bom não cai
Pois é protegido de Iansã

Chorava todo mundo
Mas agora ninguém chora mais
Chora mais, chora mais

Pra ouvir na performance do Mayanga Project:
0. A, o coração de IAO, habita em êxtase no local secreto dos trovões. Entre Asar e Asi, ele permanece em gozo.
1. Os relâmpagos  aumentaram e o Senhor de Tahuti apareceu. A Voz veio do silêncio. Portanto, o Um correu e retornou.
2. Então Nuit velou a si mesma pra poder abrir o portão de sua irmã.

Amor é a Lei, amor sob vontade.
O sacerdote dos príncipes,
Ankh-f-n-khonsu

Ainda o meu Tejo

     Ontem, sexta, acabei precisando voltar a Valença pra deixar outros documentos pro advogado. Voltei no ônibus das treze. Fazia muito calor. Eu me sentei à janela que dava pro rio pra estar com ele durante todo o trajeto. O vento da janela escancarada refrescava meu corpo e trazia consigo o cheiro da enchente. É, a enchente tem cheiro. As águas barrentas do rio, naquele calor escaldante, tinham lá algo como sua maresia. Esse cheiro vem comigo desde muito. Ele me traz outras coisas que, quando criança, perto da Fazenda Santa Clara, eu ouvi pela primeira vez. O cheiro do rio numa tarde de muito calor me traz lembranças de Iaras e Sacis nunca vistos, mas sempre imaginados. Me dá uma alma de índia. O frescor do vento me faz sonhar com sonolências embaixo de árvores copadas. Sou Mãe d'Água, Janaína, Loreley, sereia branca, alma liberta pelo calor dos trópicos porque, afinal, diz a lenda que não há pecado ao Sul do Equador. Nesse encanto, o rio me adormeceu, tomou minha alma. Tornou-me barrenta, de alma fértil.

Visitas ao dicionário

perfunctório
Datação: 1708
Acepções
■ adjetivo
1 que se faz de modo rotineiro, em cumprimento de uma obrigação
2 que tem pouca utilidade; ligeiro, superficial

Etimologia
lat. perfunctorìus,a,um 'leve, ligeiro, superficial'; ver fun(t)-; f.hist. 1708 perfunctoriamente, 1772 perfunctório; datado a partir do adv.

         A palavra é feia, pesada. Para mim sua sonoridade nada diz de seu signficado, foi uma surpresa.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O meu rio

      Hoje fui a Valença (RJ) levar pra minha tia um documento do inventário do meu pai que corre no fórum de lá. Pegar a estrada pra lá é sempre uma oportunidade de rever o Rio Preto. E ele estava no auge da sua força por conta das últimas chuvas. As ilhas bastante tomadas, as águas revoltas por causa das pedras do leito, a água barrenta. Pra quem mora por perto pode ser comum ou perigoso, pra mim, me dá uma paz... Fiquei imaginando um monte de aquarelas como aquelas gravuras produzidas pelos japoneses... A sua presença me traz silêncio também, silêncio e respeito por tanta força de vida. As águas são sempre sábias.

domingo, 12 de dezembro de 2010

outro do van gogh

Van Gogh e sua luta por capturar a luz, deixá-la ali no quadro, presa, a nos encantar e hipnotizar, como fez com ele e pela qual pagou com a vida. A luz mata. Dos três inimigos poderosos do homem que busca, segundo Don Juan de Carlos Castañeda, ela é o segundo mais poderoso. Pra mim é o principal. Perigo meu é  morrer como mariposa. O que seria uma boa morte, pelo menos justificável.

Poema em Linha Reta com Osmar Prado

http://www.youtube.com/watch?v=uElwCENBDJQ

sábado, 11 de dezembro de 2010

Eros & Psique - Poema de Fernando Pessoa

http://www.youtube.com/watch?v=p3mBdkx56l4&NR=1&feature=fvwp

Bethânia canta Pessoa e Sophya Breyner

http://www.youtube.com/watch?v=x8jEUxHD7xk&NR=1

+ FPessoa

Meu pensamento é um rio subterrâneo.
Para que terras vai e donde vem?
Não sei... Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subitâneo

De origens no Mistério extraviadas
De eu compreendê-las..., misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados...

De vez em quando luze em minha mágoa,
Como um farol num mar desconhecido,
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água...

E eu relembro de tempos mais antigos
Que  a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,

E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói-me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.

Escuto-o... Ao longe, no meu vago tacto
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mias que a ideia de rio certo e abstracto...

E p'ra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi-lo? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas sorturnas se anuvia?

Não sei... Eu perco-o... E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e actual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa...

Homenagem ao fiapo de lua q tá lá em cima

As janelas

Nestes compartimentos escuros onde passo
dias opressivos, ando para cá e para lá
a fim de achar as janelas - Quando se abrir
uma janela, será um consolo. -
Mas não se acham as janelas, ou não posso
encontrá-las. e talvez seja melhor que não as encontre.
Talvez seja a luz um novo martírio.
Quam sabe que novas coisas ela mostrará.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

WikiLeaks - o preço da liberdade de informação


Leia no link abaixo o texto de Bráulio Tavares em defesa do WikiLeaks. Espero que finalmente entendam o que significa a expressão 'big brother'. Ou como dizia o Raul: falta cultura pra cuspir na estrutura. http://mundofantasmo.blogspot.com/2010/12/2423-wikileaks-e-os-little-brothers.html

domingo, 5 de dezembro de 2010

Entrevistacom João Carrascoza

http://www.letraseleituras.com.br/entrevistas/?a=joao_carrascoza

O repentista Bob Dylan

         Toda criação poética é uma oscilação contínua entre o racional e o intuitivo, entre decisões planejadas e coisas que parecem cair do céu. “Toda”, no caso, é um exagero, porque se há milhões de poetas há milhões de poéticas; mas essa regra, que vale para mim, deve valer pra mais gente. Lembrem aquela famosa cena de Sociedade dos Poetas Mortos, em que um dos alunos de Robin Williams diz ser incapaz de escrever versos. Ele manda o garoto ficar de pé e fechar os olhos, manda-o girar sobre si mesmo e ficar dizendo o que lhe vem na cabeça, até que o garoto, que era o mais travado da turma, começa a balbuciar coisas e acaba gritando uns versos bem aceitáveis. Ela larga o garoto e diz no seu ouvido: “Nunca se esqueça disto”.
          Nunca se esqueça de quê? De que a poesia não é necessariamente uma atividade de concatenação entre conceitos abstratos, como o raciocínio filosófico. Ela pode ser, e frequentemente é, uma justaposição de imagens concretas e contraditórias. A arte está em juntar as duas coisas. Em seu livro Positively 4th. Street, David Hajdu descreve como Bob Dylan compôs muitas das canções de seu primeiro disco genuinamente folk-rock, Bringin’ it all back home. Diz Hajdu, citando uma testemunha:
          “Ele espalhava dúzia de fotografias arrancadas de jornais e revistas, arrumando-as no chão, e sentava entre elas com o violão. Começava com uma levada musical simples, um acompanhamento de blues que ele pudesse repetir indefinidamente, e então fechava os olhos. Não copiava as coisas literalmente das fotos, mas usava a impressão deixada por elas como um modelo visual para produzir uma linguagem caleidoscópica. Parecia estar cantarolando qualquer coisa que lhe vinha à cabeça, frases desconexas mas com sentimento poético. Quando surgia algo que lhe agradava, ele rabiscava aquilo às pressas, para não perder o clima, e fazia isso até ter versos suficientes para uma canção”.
            Parece maluquice, mas cada um de nós tem métodos semelhantes. Um dos meus preferidos é ficar rasqueando o violão, cantarolando uma melodia sem letra, escolher um objeto qualquer no ambiente e procurar palavras que rimem com ele. Num instante a letra começa a aparecer. O método de Dylan (e o de Robin Williams) nos lembra que o motor da poesia é o intelecto, mas o combustível é a emoção. Um, sem o outro, não funciona. O intelecto é capaz de ficar uma tarde inteira parado, ponderando um adjetivo, mas quem escreve sabe que precisa botar o motor em movimento. Para isso, uns recorrem ao violão, outros ao uísque, outros a um baseado, outros a uma vida cotidiana insone e caótica que os deixa 24 horas por dia num estado alterado de consciência. Os surrealistas praticavam a escrita automática. Tudo é válido para “passar primeira” e tirar o cérebro da imobilidade. A grande criação literária (para muitos, claro, nada disso se aplica a todo mundo) ocorre na terceira marcha. O problema é chegar lá.

sábado, 4 de dezembro de 2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

noite de primavera

no início da noite caiu uma chuva forte
minha irmã chegou em casa encharcada

mas isso poderia ser só uma crônica de primavera
não fosse o silêncio que se instalou depois da chuva
e a brisa fresca, meio fria,
assim deixando minha pele viva e indolente
e então a insônia veio
e com eles
o meu silêncio povoado de silêncios antigos
a noite ficou enorme

uma latinha de cerveja
não foi páreo pra derrubar tudo que flutuava
no rio q sou

o vento me beijava a pele
a janela me abria pra um mundo lavado
e puro

beijei o céu e o espaço circundante

beijei aquele silêncio q me deixava ser o que sou
sem pressa e sem necessidade de respostas

eu me lembrei de caetano
porque fiz essa canção
na esperança de q a manhã nascesse azul

na esperança de q amanhã eu nasça azul
Fernanda Meireles, 02.12.2010

domingo, 28 de novembro de 2010

Minha pátria é minha língua

O DNA da língua - Com todos os seus erros, grosserias e belezas

QUEM CONHECEU A CASA DE TOM JOBIM no alto do Jardim Botânico, no Rio, não conseguia deixar de se surpreender. Na estante de sua sala, poucos livros sobre música. Mas, ocupando as prateleiras, tomando a tampa do piano e empilhando-se sobre poltronas, alguns livros de poesia -e muitos dicionários. Dezenas deles, em várias línguas e de todos os gêneros: analógico, de sinônimos, tupi-guarani, de gíria brasileira e americana, de folclore, de pássaros.

Fazia sentido. As notas musicais, que Tom usava para trabalhar, já estavam todas na cabeça. Mas as palavras, sua grande paixão, não podiam ficar soltas pela casa. Seu lugar era dentro dos livros, em forma de poema, ou dos dicionários, como exércitos de reserva, de plantão para o combate, para a esgrima das ideias. Elas dominavam também boa parte das conversas de Tom em mesa de bar. E não importava muito o interlocutor. Na verdade, era como se ele dialogasse com elas, mais do que com a pessoa à sua frente. Uma de suas fixações eram as palavras que começavam com "al", denotando a presença árabe na península Ibérica e, daí, entre nós. "Alarido, alaúde, alazão, albornoz, Albuquerque, alcachofra, alcaçuz, alcaide, alcaparra, alcateia, alcatifa...", ele as ia desfiando, até que algum engraçadinho -o que era invariável- o interrompesse, citando o gângster Al Capone. Acho que ele desfiava o rosário de "als" para provocar a menção a Al Capone -e, se era assim, não fui o único a morder a isca.

Tom não cairia na armadilha de confundi-las com outras palavras em "al", mas não de origem árabe, como "albatroz", do francês "albatros", por intermédio do inglês "albatross", o qual, incrível, vem do português "alcatraz", uma espécie de pelicano -e esta, sim, talvez proveniente do árabe "al-gattás". Ou as latinas "alegria", "alegoria" e "aleluia", a francesa "alergia", as hispânicas "almofada" e "alpiste", a inglesa "alumínio". Tom não cometeria esse erro porque gostava de estudar, fazia a lição de casa e, claro, devia ter mais de um dicionário etimológico -entre os quais o ótimo "Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa", do filólogo carioca Antônio Geraldo da Cunha, publicado originalmente em 1982 e que está saindo em nova e enriquecida edição [Lexikon/Faperj, 744 págs., R$ 74,90].

A etimologia -"ciência que investiga as origens próximas e remotas das palavras e sua evolução histórica", segundo o próprio dicionário- é uma espécie de genealogia da língua. E um dicionário do gênero é o seu, digamos, DNA. Para quem gosta das palavras, a leitura de um dicionário etimológico pode ser tão emocionante quanto a de um romance de capa e espada. Aliás, os quiproquós não são muito diferentes: a língua também comporta a luta de classes, a sobrevivência das espécies, manobras econômicas, trocas comerciais, invasões estrangeiras, correrias, perseguições, fugas -a diferença é que, em vez de damas de peruca empoada e heróis mascarados, os protagonistas são as palavras. Há palavras que entram na língua disfarçadas e pela janela; outras que desaparecem e são esquecidas, e, um dia, são encontradas mortas num sebo de livros; e ainda outras que surgem de repente, brilham por um momento nos salões, e também acabam abandonadas. Um dicionário etimológico conta, em pílulas, tudo o que aconteceu na língua.

Ele nos ensina também sobre a nossa própria índole. Quem diria, por exemplo, que palavras como "botequim", "malandro" e "baderna" -três vocábulos que, às vezes, andam juntos até altas horas- não vieram do carioquês castiço ou de uma remota raiz africana, mas do... italiano? Sendo que "baderna" (desordem, confusão) nasceu de uma dançarina italiana, Maria Baderna, que atuou no Rio em 1851 e deixou os estudantes brasileiros em polvorosa.

E quem diria também que "bossa" (inchação, protuberância, mas também aptidão, queda, vocação) vem do francês "bosse" e se usa em português desde o século 18? Ou que Garrincha, o jogador, cujo nome derivou de um passarinho chamado garricha, pode ter a ver com "garrir", do latim "garrire", significando ressoar, tagarelar, chilrear? E não é interessante que "moleque" (indivíduo sem palavra ou sem seriedade, canalha, velhaco, patife) esteja regredindo em São Paulo a seu sentido original em quimbundo, "mu'leke", menino, rapazote?

Antônio Geraldo da Cunha (1924-99) não viveu para ver verbos como "deletar", "googlar" e "twittar" se intrometerem na língua do Brasil -com uma facilidade que não encontram em outras terras. E seus continuadores preferiram deixar esses estrupícios, por enquanto, de fora do dicionário. Mas tais verbos têm uma boa chance de, um dia, encontrar abrigo no "Dicionário de Expressões Populares da Língua Portuguesa", do estudioso cearense João Gomes da Silveira, que acaba de sair pela WMF Martins Fontes [980 págs., R$ 98].

Neste, que se subintitula "Riqueza idiomática das frases verbais; uma hiperoficina de gírias e outros modismos luso-brasileiros", o critério é mais liberal -basta que o povo adote uma expressão para que ela comece a fazer parte da língua. De "abafar a banca" (ganhar no jogo todo o dinheiro do banqueiro), gíria do Rio, à coimbrã "zupar na bisca" (sair habilmente de qualquer embaraço), passam-se mais de 900 páginas de chulices menos ou mais conhecidas, mas quase todas deliciosas.

Este é um livro que, apesar do peso, pode ser levado para e lido em qualquer lugar, sozinho ou em grupo, com a garantia de gerar prazer. O prazer, por exemplo, de descobrir as meiguices da língua: "acatitar os olhos" (arregalar os olhos), "andar à esparavela" (andar nu), "armar-se em parvo" (fazer-se de bobo), "bater com as dez" (morrer), "estar-se nas tintas" (não ligar, não dar bola), "ladrar à lua" (falar sem ser ouvido); "lamber embira" (passar miséria), "passar à espada" (namorar muitas mulheres) -a maioria, de origem lusa, mas que podíamos aplicar aqui. Permite também fazer mau juízo de expressões inocentes: "alçar a caganeta" (ir-se embora), "botar o cu na goteira" (ficar prevenido), "comer escoteiro" (comer um único tipo de alimento, sem acompanhamento), "melar a vara" (estragar um negócio), "meter nos cornos" (decorar, fixar na memória), "tomar na cuia" (ser vencido, perder uma questão).

É verdade que, em muitos casos, a expressão, além de suspeita, é mesmo culpada. Pode-se, por exemplo, afogar o ganso, o grilo, o jegue e o Judas, tudo com o mesmo sentido. No sentido contrário, dependendo da região do Brasil ou de Portugal, pode-se dar a goiaba, a maricotinha, o boga, o chicote, o disco, o fiofó, o frosquete, o furico, o oitão, o oiti, o tareco e, mais universalmente, o rabo.

Aliás, quando se trata de inventar expressões para descrever o ato sexual, brasileiros e portugueses são tão criativos que nem parecem religiosos -a não ser que toda essa riqueza de chulices se refira exclusivamente ao sexo para fins de reprodução.

O dicionário de Gomes da Silveira [leia entrevista em folha.com/ilustrissima] pereniza expressões outrora comuns e hoje em risco de extinção, como "abrir o bué" (chorar), "deixar a pão e laranja" (deixar passar fome), "ir à garra" (perder o rumo, ficar à deriva) e tantas outras. De uma ou duas décadas para cá, a língua parece estar sendo reduzida a um vocabulário básico -a maioria das pessoas fala e escreve do mesmo jeito, niveladas, creio, pela mediocridade da televisão. Com isso, livros como este dicionário serão indispensáveis para o dia em que a língua for efetivamente restaurada, com todos os seus erros, grosserias e belezas. Tom Jobim iria adorar.

RUY CASTRO, F São Paulo, 28.11.2010

domingo, 21 de novembro de 2010

Mestres da Literatura - Guimarães Rosa

A seqüência de links abaixo traz um documentário sobre GRosa produzido pelo Ministério da Educação. Muito bom.

http://www.youtube.com/watch?v=zfuFrCXpdeI&feature=related 

http://www.youtube.com/watch?v=_fh25aVz6RM 

http://www.youtube.com/watch?v=AJeF2pfNQVo&feature=related 

Che fece... il gran rifiuto

A alguns homens chega um dia
em que devem o grande Sim ou o grande Não
dizer. Surge imediatamente aquele que tem
pronto em seu íntimo o Sim, e dizendo-o

prossegue na honra e em sua convicção.
Aquele que negou não se arrepende. Se lhe perguntassem de novo,
não, diria outra vez. E contudo o acabrunha
aquele não - justo - durante toda a sua vida.

Mais um de FPessoa

Por que abrem as coisas alas para eu passar?
Tenho medo de passar entre elas, tão paradas conscientes.
Tenho medo de as deixar atrás de mim a tirarem a Máscara.

Mas há sempre coisas atrás de mim.
Sinto a sua ausência de olhos a fitar-me, e estremeço.
Sem se mexerem, as paredes vibram-me sentido.
Falam comigo sem voz de dizerem-me as cadeiras.
Os desenhos do pano da mesa têm vida, cada um é um abismo.
Luze a sorrir com visíveis lábios invisíveis
A porta abrindo-se conscientemente
Sem que a mão seja mais que o caminho para abrir-se.
De onde é que estão olhando para mim?
Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim?
Quem espreita de tudo?
As arestas fitam-me.
Sorriem realmente as paredes lisas.

Sensação de ser só a minha espinha.

As espadas.

sábado, 20 de novembro de 2010

Inverno

No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial

Há algo que jamais se esclareceu
Onde foi exatamente que larguei
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei
         
Lá mesmo esqueci que o destino
Sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar
 Não sei o que em mim
Só quer me lembrar
Que um dia o céu reuniu-se à terra um instante por nós dois
Pouco antes de o ocidente se assombrar
                        Ad. Calcanhoto e Antônio Cícero

A Voz de Deus

Brilha uma voz na noute...
De dentro de Fora ouvi-a...
Ó Universo, eu sou-te...
Oh, o horror da alegria
Deste pavor, do archote
Se apagar, que me guia!

Cinzas de ideia e de nome
Em mim, e a voz: Ó mundo,
Sermente em ti eu sou-me...
Mero eco de mim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que pra Deus me afundo.

Perseidas

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

trecho do Primeiro Fausto de F Pessoa

"Essa simplicidade d´alma
Possuída não só dos inocentes
mas até dos viciosos, criminosos...
...................................................
...................essa simplicidade
Perdi-a, e só me resta um vácuo imenso
Que o pensamento friamente ocupa."

                 .................  
Eu e minha paixão por Fernando Pessoa... Mas como não se apaixonar por alguém que rasga sua alma sem a menor compaixão?  Como não se apaixonar por quem deixa seu espírito nu e completamente entregue? Só ele dobra minha espinha.  Por F Pessoa eu faria qqr coisa q ele ordenasse, qualquer servidão extrema e voluntária, porque o escravo é aquele que melhor conhece o dono... quem se sujeita à face negra, beija a face luminosa... o que stá abaixo é como o que stá ao alto... maktub... quem tiver  de compreender q compreenda!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O museu Casa de Guimarães Rosa

A venda q foi do pai dele:


 
"Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa."


"Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era - ficar sendo!"


"Todo abismo é navegável a barquinhos de papel"

O museu Casa de Guimarães Rosa

A casa onde ele morou quando pequeno:



"Viver é um descuido prosseguido.
Mas quem é que sabe como?
Viver...
o senhor já sabe: viver é etcétera..."


"Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o lugar. Viver é muito perigoso..."



"Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar."


"Para onde nos atrai o azul?"

cenas de cordisburgo

Casas:




cenas de cordisburgo

A antiga estação de trem e a banda:

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

visitando guimarães rosa

Nesse feriado, vou realizar um sonho de muito tempo: vou conhecer a terra de Guimarães Rosa. Estou de partida pra Cordisburgo. Espero encontrar por lá algumas das veredas que ele plantou aqui dentro.

sábado, 6 de novembro de 2010

a poem for a lonely saturday



I Wandered Lonely As A Cloud

I wandered lonely as a cloud
That floats on high o'er vales and hills,
When all at once I saw a crowd,
A host, of golden daffodils;
Beside the lake, beneath the trees,
Fluttering and dancing in the breeze.

Continuous as the stars that shine
And twinkle on the milky way,
They stretched in never-ending line
Along the margin of a bay:
Ten thousand saw I at a glance,
Tossing their heads in sprightly dance.

The waves beside them danced, but they
Out-did the sparkling leaves in glee;
A poet could not be but gay,
In such a jocund company!
I gazed—and gazed—but little thought
What wealth the show to me had brought:

For oft, when on my couch I lie
In vacant or in pensive mood,
They flash upon that inward eye
Which is the bliss of solitude;
And then my heart with pleasure fills,
And dances with the daffodils.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Orides Fontela

Hoje, lendo o Rascunho, reecontrei a obra de Orides Fontela (1940 — 1998) , mais uma poetisa brasileira que não recebeu as benesses do 'boom' literário nacional. Afinal nunca se produziu tanta literatura no Brasil, mas ainda se registram casos de poetas q morrem na miséria, em sanatórios ou esquecidos pelas esquinas da cidade. O texto de Fernando Monteiro ("E para que ser poeta em tempos de penúria?"), no Rascunho de outubro 2010, é um grito de denúncia contra o mundo acadêmico e o mundo editorial, aquele com seus bisturis e sua assepsia e este que, em função de sua ânsia econômica,  prefere os autores facilmente digeríveis aos herméticos ou cabralinos. Foi o q fizemos com Orides e com Piva.
Fernanda Meireles
"Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, em 21 de abril de 1940. Começou a escrever poemas aos sete anos de idade. Como ela mesma dizia, sua família "não tinha base cultural, meu pai era operário analfabeto, de modo que a cultura que peguei foi na base do ginásio, escola normal e leitura". Aos 27 anos, deixou sua cidade natal e veio morar em São Paulo, com dois sonhos na cabeça: entrar na USP e publicar um livro. Cumpriu os dois: fez Filosofia e publicou seu primeiro livro, Transposição , com a ajuda do professor Davi Arrigucci Jr., seu conterrâneo. Depois de formada, foi professora do primário e bibliotecária em escolas da rede estadual de ensino. Publicou ainda Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo 1969-1988 (1988) e Teia (1996). Com Alba , recebeu o prêmio Jabuti de Poesia, em 1983; e com Teia , recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1996. Sempre com dificuldades financeiras, no final da vida, acabou sendo despejada de seu apartamento no centro da cidade e foi viver com sua amiga Gerda na Casa do Estudante, um velho prédio na Avenida São João. Era uma pessoa irritadiça e muitas vezes se meteu em encrencas, brigando com seus melhores amigos. Morreu em Campos de Jordão, aos 58 anos, no dia 4 de novembro de 1998, de insuficiência cardiopulmonar, na Fundação Sanatório São Paulo. (In: http://www.revista.agulha.nom.br/of.html#bio)"



Alguns poemas de Orides:
 
AXIOMA

Sempre é melhor
saber
que não saber.

Sempre é melhor
sofrer
que não sofrer

Sempre é melhor
desfazer
que tecer

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx 

vemos por espelho
e enigma

(mas haverá outra forma
de ver?)

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

DESAFIO

Contra as flores que vivo
contra os limites
contra a aparência a atenção pura
constrói um campo sem mais jardim
que a essência.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

AURORA III

Instaura-se a forma
num só ato

a luz da forma é um único
ápice
o fruto é uma única forma
instaurada plenamente

(o amor é unicamente
quando in-forma)

... mas custa o Sol a atravessar o deserto
mas custa a amadurecer a luz
mas custa o sangue a pressentir o horizonte

domingo, 31 de outubro de 2010

outras fotos

Eu e Ju, a grande amiga. Montou a festa porque tem culpa enorme no cartório: por causa dela eu voltei pra literatura. Alguém com quem se pode conversar sobre livros sem ser chato e alguém com quem se pode falar de banalidades com inteligência. Alguém com uma alma muito linda:
Agora, eu e a Wal: amigona e irmã camarada. Na presença dela, tudo é mais leve. Eu a apelidei de 'a sustentável leveza do ser':


Depois posto mais: tô cansada...

sábado, 30 de outubro de 2010

MAKTUB

    2h30 da manhã. Estou voltando do lançamento do meu livro de poesia, meu primeiro livro, abro aleatoriamente o Livro de Thelema e encontro:
   37 "Ó vós que estais além de Aormuzdi e Ahrimanes! bendito sois pelas eras." 3 + 7 = 10 = 1
   39 "Eles deram ao Êxtase a forma de uma lança , e atravessaram o velho dragão que estava sentado sobre a água estagnada." 3+9 = 12 = 3

               Quem tiver de compreender que compreenda.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Também quero opinar em eleição para papa

Leonardo Sakamoto

            Há semanas as campanhas eleitorais vêm bombardeando os brasileiros com imagens de seus candidatos beijando estátuas de santos ou rezando o Pai-nosso. Particularmente, tenho a certeza de que os dois são ateus ou, no máximo, no máximo, agnótiscos não-praticantes. Mas vá lá, este é um período especial e já discutimos exaustivamente neste blog sobre até onde vai a insanidade por um Dois-Dígitos-Confirma, o Santo Graal da política.
          Mas, ontem, em um discurso a bispos brasileiros, o ex-cardeal Joseph Ratzinger condenou o aborto e a eutanásia e, implicitamente, a pesquisa com embriões para obtenção de células-tronco. Ou seja, o que era esperado dele. Mas foi além, e afirmou que “os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas”. Em plenas eleições brasileiras, Bento 16 pede para que os representantes de sua igreja orientem politicamente os fiéis.
           Conversei com uma pessoa da comunidade do Jardim Pantanal (aquele bairro da capital paulista que se esvaiu em lama nas últimas enchentes) sobre isso e, apesar de ser extremamente religiosa, discorda da avaliação de Ratzinger. “Na Bíblia, está escrito para dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. A gente tem que separar o que é política do que é religião, senão não dá certo.” É a gente simples da periferia de São Paulo ensinando bons modos para o Vaticano.
             Se eu também puder meter o bedelho em Conclaves, tenho algumas sugestões. Por exemplo: acho que quem foi da juventude hitlerista não pode ser participar da seleção. Ou quem acobertou casos de pedofilia dentro da igreja.
            Ao final de sua carta, ele defendeu a solidariedade. Mas de que tipo de solidariedade ele está falando? Da caridade? Uma ação pouco útil, que consola mais a alma daquele que doa do que o corpo daquele que recebe? Ou da solidariedade de reconhecer no outro um semelhante e caminhar junto a ele pela libertação de ambos? Se for a primeira, ele está pregando a continuidade de uma igreja superficial, que ainda não consegue entender as palavras que estão no alicerce de sua própria fundação.
         Se falou da segunda, a solidariedade como redenção do corpo e da alma, ele se referiu claramente à Teologia da Libertação. Prefiro acreditar que ele estava falando da primeira, pois seria irônico a atual administração do Vaticano (que dá continuidade à anterior) pregar algo que vem tentando soterrar há tempos.
           A Teologia da Libertação tem sido uma pedra no sapato da Santa Sé. Na prática, esses religiosos católicos realizam a fé que o Vaticano teme ver concretizada ou não consegue colocar em prática. Pessoas como Pedro Casaldáliga, Tomás Balduíno, Henri des Roziers e Xavier Plassat, que estão junto ao povo, no meio da Amazônia, defendendo o direito à terra e à liberdade, combatendo o trabalho escravo e acolhendo camponeses, quilombolas, indígenas e demais excluídos da sociedade.
          Imaginem se ao invés de Ratzinger, fosse Casaldáliga abrindo a boca para falar a bispos brasileiros. E a defesa da vida fosse feita de outra forma, retomando palavras que ele proferiu há tempos:
             “Malditas sejam todas as cercas! Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e amar! Malditas sejam todas as leis amanhadas por umas poucas mãos para ampararem cercas e bois, fazerem a terra escrava e escravos os humanos.”

In: http://blogdosakamoto.uol.com.br/2010/10/29/tambem-quero-opinar-em-eleicao-para-papa/

domingo, 24 de outubro de 2010

Uma América pobre

O texto abaixo confirma o que eu disse a uma turma de segundo do ensino médio de uma das principais escolas particulares de JF há uns três anos: estamos nos tornando uma AMÉRICA, porém uma América pobre e sem exército, ignorante e preconceituosa. A cultura de massa conseguiu reproduzir, no Brasil, o 'american way-of-life'. Espero q o Renato Russo ainda esteja certo e que acabemos por cuspir de volta o lixo que andamos comendo. Espero q façamos nosso dever de casa.

Pelo amor de Deus, não copiem os EUA!

       Ao longo dos últimos 40 anos, nós, americanos, temos assistido, em nome de "valores" ou da "família", a ataques religiosos contra as mulheres e os homossexuais.
      Começou como reação a um movimento gay que ganhou grande ímpeto resistindo aos ataques da polícia de Nova York contra o bar Stonewall; e a um movimento feminista que celebrou uma vitória histórica em 1973, quando a Suprema Corte legalizou o aborto.
        O ressentimento por essas liberdades duramente conquistadas forneceu uma oportunidade aos políticos de direita e aos pastores evangélicos.
        Pastores deram a bênção aos políticos que compartilhavam da sua obsessão com a vida pessoal alheia.
        Desnecessário dizer que esses mesmos pastores logo se tornaram um espetáculo nacional, caindo um atrás do outro em escândalos, quer sexuais, quer financeiros.
          Mas os políticos covardes já entregaram a essa gente o direito de mandar em assuntos "morais".
          Agora, com crescente desânimo, vejo o Brasil seguir o mesmo caminho. Sabe-se que o evangelismo brasileiro tem suas raízes nos missionários americanos que chegaram há exatamente cem anos, e cujos descendentes estão impondo a mesma "moralidade" na política.
       Em uma carta aos candidatos, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais denunciou a "instrumentalização de sentimentos religiosos e concepções moralistas na disputa eleitoral".
         Em vez de ressaltar suas admiráveis conquistas na luta contra a homofobia ou suas antigas posições a favor do aborto legalizado, Dilma e Serra estão tentando agradar a essa mesma banda.
      Políticos corajosos teriam defendido uma outra moralidade. Denunciariam o fato de mulheres morrerem todo dia no Brasil por causa da criminalização do aborto.
        Denunciariam a Igreja Católica, que, em nome da "família", excomungou uma mãe pernambucana que providenciou um aborto para a filha de nove anos, grávida de gêmeos após ser estuprada pelo padrasto. Denunciariam que o número de assassinatos de gays no país cresceu 62% desde 2007 e que, de acordo com um estudo do Grupo Gay da Bahia, um gay é morto a cada três dias no Brasil.
         Para os americanos, isso é muito deprimente. Em vez de copiar os políticos americanos, que têm levado a nossa nação ao desastre e à paralisia, os brasileiros deveriam aprender uma lição com a Argentina, cuja presidente fez discursos eloquentes a favor de tratamento igual no casamento.
         Outra lição vem de Portugal, cujo premiê, José Sócrates, conseguiu a igualdade para todos os portugueses. Não é vergonhoso -sejamos sinceros- ver o Brasil ficar atrás da Argentina e de Portugal?
        Como aqueles países demonstraram, a moralidade e os valores têm, sim, um lugar na política. O Brasil oficial não se cansa de repetir que a tolerância é o valor por excelência do brasileiro. Mas não basta dizê-lo.
         Um dia, o debate sobre o aborto e o casamento gay terá o mesmo caráter antiquado que hoje tem a lembrança das disputas sobre o divórcio. Mas, para ver esse dia chegar, o Brasil precisará de políticos com muito mais coragem do que a demonstrada por Dilma e Serra.
         Para tornar o Brasil um país mais digno, os seus líderes terão, sim, que copiar os americanos. Não o que temos de mais detestável.
         Copiem, em lugar disso, Martin Luther King, morto depois de libertar os negros; os militantes de Stonewall, que saíram na porrada com a polícia de Nova York; e os juízes da Suprema Corte, que garantiram que nenhuma mulher morreria por ter praticado um aborto ilegal.
       Estes fizeram a grandeza de nosso país -a mesma grandeza hoje decadente, graças, também, aos fanáticos religiosos.

BENJAMIN MOSER, 34, americano,
é escritor, crítico e tradutor. Colunista de livros da revista "Harper's",
 é autor de "Clarice," (Cosac Naify, trad. José Geraldo Couto).

sábado, 23 de outubro de 2010

um pouco de arte: franz weissmann

a procura do vazio
na leveza da forma
obtida através do  trabalho alquímico
com a material bruta
gera a flor mineral
em apenas três pontos de apoio
o abstrato toca a matéria
num suave beijo
quase em adoração
                    Fernanda Meireles, 23.10.2010

Contistas brasileiros: João Anzanello Carrascoza

Carrascoza: "Gosto de habitar aquelas em que o silêncio diz mais que as palavras. No não dito, descobrimos o que não é possível enunciar"
 
No link abaixo, bela entrevista dada ao Portal Literal:

domingo, 17 de outubro de 2010

feriado na casa da minha mãe

Minha tia me contou do embate com as formigas que atacavam as roseiras: "precisava ver o carreiro colorido subindo o muro". Alma de artista, mesmo... da escolha da paleta de cores ao fazer seus bordados, todos modificados "porque as revistas deixam os riscos sempre muito apagados, sem vida", ao flagrante das formigas.

Uma sabiazinha fez ninho na samambaia da varanda. Por causa dela e de seu tempo de espera, a casa vive atenta. Não se pode brincar, gritar ou fazer tumulto na varanda. Esta é a nova lei lá em casa. Respeito e agradecimento pela escolha. "E não é qualquer sabiá, é sabiá do mato, mais arisco", diz minha tia. Minha irmã fotografou o evento, depois posto aqui.

De tardinha, levei minha sobrinha e uma amiguinha pra tomarmos sorvete. Estava uma tarde calma embora a cidade estivesse começando a encher por causa do carnaval de época. Minha alma estava leve na leveza do riso delas. Voltamos com o início da noite, havia um fiapo de lua por entre as nuvens. Na loja de roupas de época tocavam um jazz, Miles Davis, Parker ou Gillespie, algo assim de 40... No céu noturno e leve uma estrela devagarinho foi brotando... A natureza estava em silêncio, tudo parado, sem nenhum movimento naquela hora sagrada de Anubis. Nós três voltavamos pra casa aprendendo que ser mulher é o eterno paradoxo de buscar a leveza sendo carne.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

manhã de primavera

A manhã fria
de primavera
com as marcas
da chuva da noite
mostra-se grávida de tudo.
Flores, frutos, folhas,
tudo em viço,
com a força de vida
a explodir
a cada toque do olhar.

Do meu livro "Litterofagia  - escritas poéticas"
Fernanda Meireles

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

ele chegou

 as grandes civilizações têm seus monumentos
as grandes cidades têm seus marcos.
a minha vida encontra nele
um novo horizonte
um novo caminho
que, na verdade, sempre esteve ali
à minha espera.

literariamente
não se configura nenhuma revolução estilística
ou um novo movimento literário.
nunca tive e não tenho tais pretensões.

ele está ali
como a flor de cerejeira que lhe estampa a capa
ou como os ipês amarelos que enfeitam a minha rua
apenas pra me dizer
que a vida renasce
que sempre há o que florescer
mesmo quando os galhos parecem secos
e a árvore está nua
e isso é simples, puro e imenso
como a vida.

Fernanda Meireles, 11.10.2010

eu e ele

domingo, 10 de outubro de 2010

a vida em brancas nuvens

      Essa semana reencontrei uma colega da época de faculdade e a gente acabou parando pra conversar e tomar um cafezinho com pão de queijo. Bom, conversa vai, conversa vem... como é típico nesse tipo de encontro, atualizamos nossas vidas uma pra outra. E isso significa, contar as voltas e reviravoltas costumeiras do viver. Depois de contar a ela sobre meu retorno à literatura, depois de investir um doutoramento em lingüística (coisa com a qual ela se surpreendeu, pois, dentre suas lembranças da época da faculdade, está a minha monitoria de literatura portuguesa), depois de lhe contar do meu casamento e do meu ‘descasamento’ já há 4 anos, depois de lhe contar sobre meu projeto de casa nova à margem de uma mata, de lhe contar outras tantas desventuras também com o mundo acadêmico, a minha reencontrada amiga abaixou a cabeça e disse-me em meia voz que sua vida continuava a mesma coisa. E isso inclui não só sua situação profissional e financeira, como até mesmo seus desajustes afetivos. Fiquei meio sem saber o que dizer porque sou um ser do movimento... gêmeos, signo de ar, né... Também filha de Iemanjá, segundo alguém por aí e, portanto, também filha de outro movimento, o das águas...
            Sei que aquilo me incomodou depois q nos separamos... Eu tenho mudado bastante. Digamos q o vento tem se tornado mais leve, a caminho de ser brisa, coisa q tenho buscado, sem pressa, mas com constância. Entretanto, ser imóvel e não deixar a vida passar por vc é coisa q me assombra, é de uma covardia silenciosa e cotidiana, é coisa de quem se trai... Não sei quem está certo, não sou juiz de ninguém... mas a vida pulsando na veia, o dia de amanhã se descortinando, o futuro te esperando mesmo q seja no fio da navalha, foram feitos pra q possamos mostrar de q matéria é nosso espírito. Como tudo na minha vida termina em poesia, acabei me lembrando das brancas nuvens de F Pessoa e de V de Moraes:

“Quem passou pela vida em brancas nuvens
e em plácido descanso adormeceu.
Quem nunca bebeu das fontes da alegria,
da paz, do amor, do silêncio e da harmonia.
Quem nunca se deleitou com a meditação.
Quem nunca experimentou o êxtase interior.
Vegetou. Se arrastou do útero à cova...
Foi um espectro de homem, não foi homem.
Só passou pela vida, não viveu.” F Pessoa

“Como dizia o poeta
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não.” V de Moraes

Fernanda Meireles, 10.10.2010

campanha contra o obscurantismo

Obscurantismo
       Ganha destaque, na atual etapa da corrida sucessória, o tema da descriminalização do aborto. Trata-se de questão complexa, que por envolver convicções pessoais e religiosas só poderia, a rigor, ser decidida legitimamente por meio de uma consulta popular.
      Nem por isto é despropositado que o assunto se torne presente no debate eleitoral. É direito do cidadão conhecer as opiniões dos candidatos sobre o tema, mas em vez de ocasionar uma discussão racional e franca, a disputa sucessória tem-se caracterizado por uma atitude que, sem exagero, merece ser classificada como obscurantista.
     O termo vem a propósito, não pela rasa identificação que se costuma fazer entre a firmeza de convicções religiosas e um espírito medieval de caça às bruxas. Pode-se perfeitamente ser contra o aborto, em qualquer circunstância, sem ser um fanático fundamentalista -e mesmo sem professar nenhuma religião.
      O obscurantismo se estabelece na campanha eleitoral quando o que se procura é antes confundir o eleitor do que esclarecer as próprias posições.
     Tome-se, por exemplo, o slogan do "direito à vida", presente na propaganda eleitoral de ambos os candidatos ao segundo turno. Como se sabe, tais palavras têm um sentido claro para o eleitorado católico, e cristão de modo geral, no que apontam para uma condenação do aborto, mesmo nos casos já admitidos na lei brasileira -o de gravidez decorrente de estupro e o de risco de morte para a mãe.
     Nenhum dos dois candidatos propõe, ao que se saiba, a revogação desse dispositivo. Mas que recorram ao lema do "direito à vida" é sintomático da dificuldade de ambos em defender o que já existe, na legislação, de contrário às ideias dos eleitores que pretendem conquistar.
     Esta Folha considera que a legislação vigente deve ser flexibilizada, de modo a permitir que, já sofrendo numa circunstância evidentemente dramática e dolorosa, qualquer mulher possa interromper a gravidez sem que seja considerada criminosa por isto.
    Cerca de 1,1 milhão de abortos clandestinos são feitos anualmente no país. Em condições muitas vezes precaríssimas, constituem a terceira ou quarta causa de mortalidade materna no Brasil. Em 56 países, que representam 40% da população mundial, o aborto é permitido sem restrições até a 12ª semana de gravidez -limite máximo que se poderia admitir.
      Com certeza, políticas públicas de esclarecimento e garantia de acesso a meios anticoncepcionais, como a pílula do dia seguinte, poderiam, se amplas, intensivas e duradouras, prevenir a gravidez indesejada e reduzir de maneira drástica o número de mulheres que se valem, numa situação extrema, do traumático recurso.
       Alguns setores religiosos, como se sabe, opõem-se até mesmo ao uso de anticoncepcionais. A  sociedade como um todo evoluiu na direção oposta -e um plebiscito sobre o aborto, mesmo se não confirme essa tendência, haveria, ao menos, de esclarecer os vários aspectos envolvidos na questão.

Editorial Folha de São Paulo, 10.10.2010

o lugar do escritor

sábado, 9 de outubro de 2010

um dos mais conhecidos de kaváfis

VELAS


Os dias do futuro erguem-se diante de nós
como uma série de pequenas velas acesas –
pequenas velas douradas, quentes e vivas.

Os dias passados ficam atrás,
uma triste figura de velas apagadas;
as mais próximas ainda exalam fumaça,
velas frias, derretidas e recurvadas.

Não quero vê-las; entristece-me seu aspecto,
e entristece-me lembrar seu primeiro clarão.
Adiante contemplo minhas velas acesas.

Não quero voltar-me para não ver, apavorado,
com que rapidez a sombria fileira se alonga,
com que rapidez se multiplicam as velas apagadas!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Mais sobre a sombra fascista q ronda a democracia brasileira

Brasil regride séculos com programa eleitoral sobre Deus, aborto e família

Mauricio Stycer, Crítico do UOL

De um lado Dilma, de outro Serra. No meio, “a família brasileira”, esta entidade abstrata, a quem os dois candidatos resolveram se dirigir com promessas de “respeito à vida” e a Deus, como se o Brasil vivesse uma era de obscurantismo e perseguição religiosa.
Um atraso de séculos, dramatizado pelo discurso dos dois candidatos e de apelações variadas. No caso de Dilma, o já recorrente reforço do presidente Lula, que disse ter sido vítima de mentiras, como a sua candidata: “Disseram que eu ia fechar as igrejas”. Já Serra, fez desfilar pela tela mulheres grávidas, enfatizando o lema de que é “a favor da vida”, do “dom da vida” e da “mãe brasileira”.
Em sua primeira frase, Dilma disse: “Quero começar este segundo turno agradecendo a Deus por me ter concedido uma dupla graça”. Serra, na imagem que abriu seu programa, apareceu discursando sobre a sua ida ao segundo turno e rogou: “Com Deus, vamos à vitória”.
O programa da petista atribuiu a “uma corrente do mal” na Internet a divulgação de mentiras a seu respeito. “Dilma respeita a vida e as religiões”, disse a narradora, repetindo o presidente Lula e a própria candidata.
Serra, apresentado como “do bem”, mostrou como pretende confrontar a petista: “Não mudo de opinião em véspera de eleição”. E repetiu seu bordão sobre “o direito à vida”. E o narrador, em outro momento, lembrou que “diferente do PT de Dilma”, Serra “sempre condenou o aborto”.
Até ao fazer promessas de cunho objetivo, os candidatos impregnaram o discurso com palavras de apelo religioso e moral. “Para fortalecer a família brasileira, Dilma vai construir mais 2 milhões de moradias e, ao mesmo tempo, melhorar o sistema de saúde”. Serra falou em “devoção às instituições democráticas”.
Um desastre. Num Estado laico e democrático, é assustador ouvir os candidatos à Presidência da República recorrerem a Deus para conseguir votos. (grifo meu)

08/10/2010

(Eu sei q é um blog de literatura, mas não há como silenciar quando o obscurantismo bate à porta. Espero que as pessoas comecem a tomar consciência do q de fato anda acontecendo no Brasil  disfarçado de religião. Há um projeto autoritário  de nação sendo gestado e ninguém fala nada.)

domingo, 3 de outubro de 2010

Huxley e a democracia brasileira

         Estou inserindo novamente e atualizando o post sobre o livro "The Devils Of Loudun", "Demônios da Loucura" em português, de Aldous Huxley como uma homenagem a  este dia 03 de outubro de 2010, dia da Festa da Democracia Brasileira. Essa minha homenagem pode parecer bastante irônica ou um contra-senso, entretanto eu quero apenas alertar para um fenômeno que vem crescendo no Brasil, de forma acentuada, sem que ninguém dentre aqueles defensores da democracia e da liberdade  se pronuncie sobre isso. Estou falando da crescente aliança entre religião e política no Brasil, aliança fascista por excelência. Juiz de Fora, nossa  "Manchester Mineira", "cidade da cultura e do trabalho", mostrou na última eleição para prefeito que realmente anda na "vanguarda do progresso estrada afora". Às vésperas do dia da eleição, os jornais da cidade publicaram um manifesto de pastores evangélicos conclamando os eleitores a escolherem um dos  candidatos. O movimento religioso que se formou acabou revertendo o resultado das pesquisas.
      Sabemos que interesses políticos e econômicos se valem de preconceitos e inculcações religiosas para se estabelecerem. Essa semana uma aluna minha, adolescente de 11 anos, disse que a mãe não iria votar na canditada do governo porque o pastor falou isso e aquilo.  Não está em questão a candidata, mas a forma como o voto está sendo obtido: o terror religioso, a doutrinação, como ferramentas políticas. Quando sabemos que existem grupos que fazem qualquer coisa pelo poder, eu fico temerosa em relação ao futuro do Brasil.
      Em nosso país, de um lado ou de outro, há pessoas de diversos credos apoioando partidos políticos ou mesmo participando como candidatos. Esse também não é um fato novo na história brasileira, nem na história da humanidade de forma geral. Nos casos em que a postura partidária é sustentada por uma opção ideológica amadurecida, nos casos em que as coisas são tomadas e respeitadas dentro de seus respectivos dominios, a opção partidária se justifica afinal todos somos agentes políticos, independente de sermos ou não agentes religiosos.  Me assusta é a forma como as coisas vêm acontecendo, pois quando se lança mão de preconceitos, inverdades ou mesmo da venda descarada de votos, os fatos configuram-se num retrocesso político, disfarçado em discurso religioso doutrinário.
        O livro de Huxley mostra como o fanatismo pode servir, além de meio de escape para histerismos, para manobras de poder e interesses políticos, e isso lá na Idade Média. Caetano Veloso realmente tem razão: vivemos noutra Idade Média, situada no futuro, não no passado...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

UM VELHO

No interior do café ruidoso,
inclinado sobre a mesa, está sentado um velho;
com um jornal à sua frente, sem companhia.

E no menosprezo da velhice miserável
pensa quão pouco fruiu dos anos
em que tinha a força, o verbo e a beleza.

Sabe que envelheceu muito; sente-o, observa-o.
E entretanto o tempo em que era jovem se lhe afigura
como ontem. Que breve espaço, que breve espaço!

E medita como a Prudência o enganava;
e como sempre confiava nela - que loucura! -
a mentirosa que dizia: "Amanhã. Tens muito tempo."

Lembra-se dos ímpetos que reprimia; e quanta
alegria sacrificava. Cada oportunidade perdida
zomba agora de sua prudência insensata.

...Mas por muito pensar e recordar,
o velho atordoou-se. E adormece,
apoiado na mesa do café.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

MURALHAS

Sem consideração, sem piedade, sem pudor,
grandes e altas muralhas em torno de mim construíram.

E agora estou aqui e me desespero.
Outra coisa não penso: este destino devora meu espírito;

porque muitas coisas lá fora eu tinha que fazer.
Ah! quando construíam as muralhas, como não dei atenção?

Entretanto, jamais ouvi batidas ou rumores de pedreiros.
Imperceptivelmente, encerraram-me fora do mundo.

versão final da capa

domingo, 19 de setembro de 2010

o gato preto em animação

http://www.youtube.com/watch?v=po_T90CthjI&feature=related

poe no entrelinhas

http://www.youtube.com/watch?v=SnX8t4BTjlw

Crônicas marcianas quase terráqueas

Um livro que fala muito mais sobre nós e nosso medo do conhecimento, medo do desconhecido, do que de marcianos hollywoodianos e apocalípticos. Um livro que fala sobre nossa ambição desmedida e sobre nosso anseio neurótico obsessivo por dominar. Um livro que fala sobre nossa capacidade de destruir civilizações e  ambientes naturais. E tudo porque quase sempre optamos pela mediocridade, por sermos medianos, por não tentar ser maior e ver mais longe. Um livro que fala de um futuro que é o nosso agora, num planeta Marte metáfora de um planeta Terra de amanhã.
Fernanda Meireles, 19.09.2010

Bradbury faz 90 anos

O livre conhecimento dos livros

LÁ FORA, AS SIRENES tocam com estardalhaço. Dentro, os espectadores se perguntam se o barulho faz parte do evento. Afinal, aguardamos o início de "Fahrenheit 451", um filme sobre bombeiros -não aqueles que apagam fogo, mas os que incendeiam livros.
Mas as sirenes são apenas uma coincidência que marca a entrada de Ray Bradbury, o paladino das bibliotecas agonizantes e autor do livro homônimo no qual François Truffaut baseou seu longa-metragem de 1966.
Bradbury entra na sala e atravessa o corredor ignorando aplausos e flashes, o olhar petrificado por trás dos óculos de lentes grossas, enquanto desliza numa cadeira de rodas até o palco.
O autor de "O Homem Ilustrado" e "As Crônicas Marcianas" era o convidado da noite, na sede do Sindicato dos Roteiristas, em Los Angeles, no mês passado.
O escritor completou 90 anos em 22 de agosto e a prefeitura resolveu homenageá-lo criando oficialmente a Semana Ray Bradbury, com uma programação de eventos, peças de teatro e tardes de autógrafos.
Para falar com o público antes da exibição de "Fahrenheit 451", Bradbury precisou que segurassem o microfone para ele. Na cadeira de rodas desde que sofreu um infarto, há mais de dez anos, o autor é uma figura frágil, mas não lhe faltam palavras afiadas e bom humor.
"Mel Gibson está muito ocupado com sua garota russa", disse Bradbury, referindo-se às polêmicas do ator com sua ex-mulher. Há mais de uma década, Gibson comprou os direitos de produzir o remake de "Fahrenheit 451". O contrato vence em 2011 e não há sinais de que o filme saia até lá.
Bradbury segue escrevendo vigorosamente. "Acordo todo dia e explodo", conta, e dá risada: "Vomito pela manhã e limpo pela tarde". Ele diz que, de sua casa em L.A., costuma ditar histórias pelo telefone para a filha, que mora no Arizona. Até o final do ano, lança o livro de contos "Juggernaut".
Durante o evento, o escritor reafirma sua paixão pelas bibliotecas. Foi numa sala de estudos de uma delas, a Powell Library da Universidade da Califórnia, que escreveu "Fahrenheit 451", há quase 60 anos, com uma máquina de escrever alugada na biblioteca.
O autor lembra que, sem dinheiro para fazer faculdade na época da Grande Depressão, impôs-se a disciplina de frequentar bibliotecas pelo menos três vezes por semana, durante dez anos.
Nos últimos anos, Bradbury visitou cerca de 200 bibliotecas californianas, em campanhas de arrecadação para evitar o fechamento de muitas delas, ameaçadas pelos drásticos cortes orçamentários do Estado.
"Bibliotecas são mais importantes do que universidades. Bibliotecas são livres. E o conhecimento deve ser livre."
Hoje (19/9), o autor dará autógrafos numa convenção de HQs em L.A. Mais de 20 obras suas foram transpostas para o universo dos quadrinhos na última década.

FERNANDA EZABELLA , Folha de São Paulo, 19.09.2010

sábado, 4 de setembro de 2010

não por acaso - a canção do filme

Só Deixo Meu Coração na Mão de Quem Pode
Katia B

Só deixo meu coração
Na mão de quem pode
Fazer da minha alma
Suporte
Pr’uma vida
Insinuante
Insinuante
Anti-tudo que não
Possa ser
Bossa-nova hardcore
Bossa-nova nota dez

Quero dizer
Eu tô pra tudo nesse mundo
Então só vou
Deixar meu coração
A alma do meu corpo
Na mão de quem
Pode
Na mão de quem
Pode
E absorve
Todo céu
Qualquer inferno
Inspiração
De mutação
Da vagabunda intenção
De se jogar
Na dança absoluta
Da matança
Do que é tédio
Conformismo
Aceitação
Do fico aqui
Vou te levando

Nessa dança
Submundo pode tudo
Do amor
Porque não quero teu ciúme que é o cúmulo
Ciúme é acúmulo de dúvida, incerteza
De si mesmo
Projetado
Assim jogado
Como lama anti-erótica
Na cara do desejo mais
Intenso de ficar com a pessoa

E eu não tô à toa
Eu sou muito boa
Eu sou muito boa pra vida
Eu sou a vida
Oferecida
Como dança e não
Quero te dar gelo
Jealous guy

Vê se aprende
Se desprende
Vem pra mim
Que sou esfinge do amor
Te sussurrando
Decifra-me

Só deixo minha alma
Só deixo o coração
Só deixo minha alma
Na mão de quem pode

Só deixo minha alma
Só deixo meu coração
Na mão de quem ama solto

Eu vou dizendo
Que só deixo minha alma
Só deixo meu coracão
Na mão de quem pode
Fazer dele erótico suporte
Pra tudo que é ótimo fator vital

Uma do Roberto Carlos porque "todos estão surdos"

....A covardia é surda e só ouve o que lhe convém...

sábado, 28 de agosto de 2010

o sábado na voz do vinícius

http://www.youtube.com/watch?v=jpfymRLaPaA

o sábado do vinícius

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

xabbát

vinicius de moraes e o sábado
porque hoje é sábado
é sétimo dia
e meu número é sete
então é dia de celebrar
o vinho e a literatura
porque hoje é sábado
hilda hilst
porque hoje é sábado
o diálogo com deus na conclusão da obra
hoje, sábado, eu trânsida de vinho e literatura
cultuo todos os deuses
e o infinito é meu espaço de ser
o poema 'porque hoje é sábado'
sempre me pareceu um violamento
território livre
para toda a expansão do ser
nem bem nem mal
sábado
fui...
e sou
xabbát
dança de ritmos
pulsando o ser no ritmo cósmico
todo homem e toda mulher
é uma estrela
porque hoje é xabbát

Fernanda Meireles, 28.08.10
gêmeos com  ascendente em peixes porque hoje é sábado

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Queneau no metrô, Zaziê no Brasil

              Foi a leitura de Calvino que me levou à leitura de "Zaziê no metrô" e, a partir dela, a conhecer Raymond Queneau, figura singular da literatura francesa do século XX. Nessa obra de 1959 já é possivel observar traços de rompimento com a construção narrativa que vão ser marcos da chamada literatura do fim do século vinte. Se o leitor não ficar atento, acaba se perdendo nos meandros da narrativa, misturando personagens e lugares. Muito me marcou também a transposição para o texto da movimentação quase alucionatória de uma cidade como Paris. Estão lá também as ironias e as críticas aos 'rapturistas' (como reconstrói no Português Paulo Werneck) e aos parisienses que os recebem. Se por um lado aqueles parecem animais automatizados que só levam da cidade a imagem que o roteiro turístico lhes impõe, estes também aproveitam-se para tirar-lhes trocados a mais por ocasiões de viver a autêntica Paris que só os nativos conhecem.
               Mas o melhor de tudo, como observa Roland Barthes no posfácio, é realmente a figura da menininha desbocada, Zaziê. Sua vontade de conhecer o metrô de Paris durante a curta estadia na casa do tio Gabriel leva a várias confusões nas quais diversos personagens típicos da cidade participam. É também um modo de o autor fazer um retrato dos parisienses. Zaziê e sua boca suja, o tempo todo, são um contraponto para as falas e as atitudes dos adultos como que, ao desmarcarar o discurso de cada um, desconstrói também um modelo de construção narrativa mais policamente correto (nos termos de hoje impostos pela hipocrisia americana) e literariamente mais tradicional. Zaziê me lembrou minha sobrinha de oito anos que, embora não tenha a mesma boca suja, tem a capacidade de 'sentar os adultos no colo'. Zaziê me lembrou diversos alunos de uma das escolas públicas onde leciono que, com sua boc a suja  e suas frases cortantes, desmascaram uma narrativa social que a mídia toda noite tenta lhes inculcar. Fico feliz por saber que Zaziê aportou no Brasil.

Fernanda Meireles, 24 agos 2010

domingo, 15 de agosto de 2010

Canto da inteireza

Em certas noites,
Em momentos inesperados,
As redes de Orfeu
Me trazem
do fundo do mar ancestral
um fantasma que lá se esconde.
Habitante de navios náufragos,
Esse fantasma, às vezes, assoma
À minha superfície
E deixa revolto o mar tranqüilo
Do meu cotidiano.

Como no grafite,
Esse celacanto que mora
Nessas minhas regiões abissais,
Não é, na verdade, o provocador dos maremotos.
É sim, um codinome
Pra um submarino inimigo
Que ronda minhas fronteiras
Tencionando vencer-me e conquistar-me.
O comandante, ironia maior,
Tem minha face e minha voz
Tão bem disfarçadas
Noutra voz e noutra face –
A do fantasma que me ronda.
Enfim,
Não há ninguém ali
Além de mim mesma.
Essa é a única coisa,
Verdade nua e crua,
Que mantém o leme seguro
E a rota firme.
Todos os embates são meus,
Todos os inimigos
São minha contraface,
Porque nada me habita
Se eu não o tiver tornado
Eu.

Sou ilha
E pra me habitar
Há que se tornar ilhéu.

Sou mar
E pra me habitar
Há que se tornar marítmo.

Sou navio
E pra estar a bordo
Há que ser marinheiro.

Sou eu,
Fantasma, mar, navio, ilha,
Origem, caminho, destino final,
oroboros.

SOU INTEIRA.
APENAS SOU.

Fernanda Meireles,
Juiz de Fora, 16 de agosto de 2010,
a partir do filme "A Origem"

domingo, 1 de agosto de 2010

Ensaios de Sábato

Ensayos (inéditos)


Ernesto Sábato


Un argentino que pretende utilizar a Marx como maestro sostiene que el Don Segundo Sombra de Güiraldes no existe, que es apenas la visión que un estanciero tiene del antiguo gaucho de la provincia de Buenos Aires. Lo que es más o menos como acusar a Homero de falsificador porque exhaustivos registros llevados a cabo en las montañas calabresas y sicilianas no han dado con un sólo cíclope. Con este mismo criterio de naturalista habría que rechazar a Modigliani por su manía de pintar mujeres con gargantas inexistentes. Pero ¿"inexistentes" dónde? No desde luego en el espíritu del pintor. La diferencia entre Modigliani y una máquina fotográfica es que el arte no es una copia de la mera realidad externa sino un acto ontocreador, más cercano al sueño que al espejo.

Por ahí andaba todavía el modelo que empleó Güiraldes para inventar su personaje. Creo que se llamaba Segundo Ramírez. Los astutos administradores de la fama lo exhibían a los turistas extranjeros. Evité la tristeza de conocerlo, pero aún así puedo asegurar que era un mistificador, porque el auténtico Don Segundo es el mito imaginado por Güiraldes, que misteriosamente reveló un secreto de la condición pampeana. Inmortal, como todos los mitos. Que los sociólogos de la literatura y los profesores de folklore no pierdan el tiempo tratando de desautorizarlo.

Los granos de un montón

Un vicerrector de la universidad de Cambridge, llamado Lightfoot, en época menos inclinada a la incredulidad, mediante un minucioso estudio del Génesis, probó que Adán fue creado el 23 de octubre del año 4004 antes de Cristo, a las 9 de la mañana. Ahora me entero de que en 1978 se cumplió el milenario de la lengua castellana. Sorprendido por la exactitud, traté de averiguar cómo era la cosa, y la cosa era así: en cierto momento del año 978, un monje de San Millán de la Cogolla, en el margen de un manuscrito en latín, escribió anotaciones en una disparatada jerga románica, ignorando que acababa de inaugurar el castellano. Se me dirá que estoy bromeando, pero no hago sino parafrasear los argumentos que se ofrecen para esta celebración. Porque si no, ¿de qué fecha estamos hablando? No tratándose del esperanto sino de una lengua viva, debemos suponer que el buen hombre no inventó el nuevo idioma, formado durante siglos, poco a poco, torpe y balbuceantemente, por analfabetos que para criar cerdos, enfurecerse con la mujer, pedir la comida y amenazar a los chiquilines no iba a aprender a Cicerón.

Nunca se sabrá cuánto duró este proceso, que algún purista llamaría de corrupción del latín; primero, porque no aduvimos cerca de ese durante algunos cientos de años, y, segundo, porque tampoco puede establecerse cuándo se alcanza la categoría de montón agregando granos de trigo.

Calma, estructuralistas

Hay un tipo de beato del estructuralismo que con gusto aboliría la historia, lo que me parece un poco exagerado, cuando advertimos cómo pasa todo, no sólo el Imperio Romano sino la propia moda del estructuralismo. Esa gente enarbola la sincronía como un garrote y al que sale con antigüedades como ésta, un golpe en la cabeza, mientras se profieren palabras como reaccionario, subdesarrollo y oscurantista.

Pero sí, hombre, ya lo sabemos, desde la época en que estudiábamos matemáticas, en la década del 30, mucho antes de que se nos viniera la moda desde París. ¿Cómo no íbamos a saber que "La pasión según San Mateo" o un gusano son estructuras? Tampoco ignorábamos que era una saludable reacción contra los atomistas, los positivistas y los fanáticos del historicismo. Pero se les fue la mano. Vean con la lengua: una realidad en perpetuo cambio, en la que, tarde o temprano -¡oh, diacronía de las ideas!- hay que aceptar el modesto pero demoledor hecho de la transformación de las estructuras, aunque sea como una sucesión de estados sincrónicos; tarde o temprano hay que admitir que en todo estado de una lengua está oscuramente la energía que conducirá a una nueva estructura.

Bueno, por favor, no es tan deshonroso. En suma, que el estructuralismo es válido haste el momento en que deja de serlo.

Las vulgaridades de la novela

Cuenta Gide en su Journal que Valéry no se decidía a escribir una frase como "La marquise sortit a cinq heures". ¿Y qué prueba eso? Una novela, y hasta una gran novela, está llena de frases tan triviales como ésa, como la vida misma: Hegel también se desayunaba. Además, una ficción es como un continente, en que para llegar a lugares que han de fascinarnos deben atravesarse estúpidas llanuras sin otros atributos que el polvo, el cansancio y la monotonía.

Muchas veces me he preguntado si Valéry no consideró sus impotencias como virtudes. Apuesto a que habría querido escribir el Quijote, que está plagado de marquesas que salen a las cinco. Se pasó la vida hablando de las matemáticas y usando giros de su idioma, que los profanos admiran tanto más cuanto más los ignoran; y sin embargo no pudo aprobar el ingreso a no sé qué escuela por culpa de esas matemáticas. Pascal abandonó a los trece años a esa mujer por la que Valéry suspiró sin poder poseerla. Como para que no escribiera aquella frase rencorosa: "Pascal perdió la oportunidad de darle a Francia la gloria del cálculo infinitesimal".

Y a propósito de Pascal

Es característico que ni él, ni Kierkegaard, ni Nietzsche fuesen filósofos sistemáticos: fueron irregulares, fragmentarios; y tal vez porque en ellos la vida y el misterio son más importantes que la explicación y el sistema. Los tres son emocionales, místicos, atormentados. Devolvieron el pathos al pensamiento, y fueron grandes escritores. Si es cierto que el Absoluto no se alcanza como pretendía Hegel sino por arrebatos y éxtasis, de modo parcial, por pedazos, ellos revelaron vastas regiones de ese misterioso continente.

Psicología con p

Al corregir las pruebas de galera de un libro mio me sorprendí al advertir la grafía "sicológico", donde yo habia puesto "psicológico". Porque aun cuando una editorial se haya jurado una determinada política lingüística, no puede imponérsela a los escritores, que generalmente tienen sus propias ideas sobre el idioma. No ya la dirección de una editorial sino tampoco la propia Real Academia de Madrid tiene derecho a hacerlo, pues al fin de cuentas las normas de ese cuerpo son la consagración de las modalidades impuestas por el pueblo y los escritores.

¿Qué argumentos se pueden oponer a la grafía psi? No, por supuesto, la fonética, ya que la gente culta generalmente la pronuncia así. Y en el caso de que no se la pronunciase, tampoco es un argumento, porque si fuéramos a caer en la locura de escribir las palabras tal como se pronuncian tendríamos que poner payasadas como sológico, asaña y rebolusión, al menos en Buenos Aires.

Por lo demás, que en ningún idioma hay correspondencia entre el lenguaje hablado y el escrito, puesto que el escrito esta fijado por los textos y aquél va cambiando en el espacio y en el tiempo. En alguna parte y en alguna época se pronunciaba o pronuncia "bosque", pero hoy aquí en Buenos Aires decimos "bojque"; del mismo modo, supongo, que en algún tiempo en Francia se decía "mesme", para luego derivar hacia "mejme", y luego a "mehme", para terminar escribiéndose "meme" donde el acento circunflejo indica que allí hubo alguna vez una perecedera ese. Si el lenguaje escrito fuese alterado cada vez que el pueblo y las costumbres fonéticas cambian, sería cosa de no acabar, y una forma más demencial de dividir el territorio lingüístico en parcelas liliputienses: ya que habría que usar una forma para Buenos Aires, con sus "bojques" y "yubias", y otra para Santiago del Estero, con sus "bosques" y "iubias". Pero qué digo, habría que establecer una lengua para el Barrio Norte de Buenos Aires y otra para La Boca.

Todo idioma se aleja de lo escrito. Y algunos, como el inglés, que allí donde escriben Londres pronuncian Constantinopla. Esos investigadores que andan con grabadores han contado no menos de veinte formas de pronunciar la letra o, entre las cuales la más sorprendente es la que figura en la palabra women.

La lengua oral es tan voluble que a veces hasta imita a la escrita, lo que ya es el colmo de vuelta. Así, antes del Renacimiento se escribia y se pronunciaba "oscuro"; pero los eruditos de la época, por escrúpulo etimológico, apuntalaron la palabra con una b. Podría haberse mantenido muda, como corresponde a una momia o un fósil. Pero las enérgicas educadoras lograron que los chicos pronunciaran finalmente "obscuro". Lo que, por supuesto, y si se dejan de lado los golpes, nada tiene de dramático; hay que tomarlo ahora como una costumbre más y no hacer tanto escándalo. De modo que si a un escritor se le da la real gana de escribirlo sin b, hay que respetarlo. Y si no se lo respeta, hay que protestar. Que es exactamente lo que le pasó a Unamuno cuando un pedante corrector le puso en una de sus pruebas: "¡Ojo! ¡Obscuro!", corrigiendo lo que había escrito don Miguel. A lo que, tachando enérgicamente la insolencia, contestó, también al margen: "¡Oreja! ¡Oscuro!"

Vanguardia y progreso en el arte

La palabra "vanguardia" se la vincula al progreso. Pero en el arte no lo hay (cf. Collingwood), como lo revela el auge que en el París de comienzos de siglo tuvo el arte de los negros y polinesios. En el arte hay acciones y reacciones. Corsi y ricorsi. Hay dialécticas de escuelas, ciclos, sempiterna lucha entre lo apolíneo y lo dionisíaco, entre bizantinismo y vitalismo entre complicación y simplificación, entre artificio y naturalidad, entre claro y oscuro, entre violencia y serenidad, entre romántico y clásico. Y no sólo hay sucesión sino contraposición de tendencias o escuelas (Quevedo y Góngora).

Piénsese, dicho sea de paso, qué "avanzado" resultó de pronto el arte hierático de Ramsés II frente al mero naturalismo europeo. Pero esto del progreso es una manía invencible. ¿Cuál era el personaje de Proust que suponía mejor a Wagner que a Beethoven, nada más que porque vine después? Pero no estoy seguro ni del personaje (una mujer, me parece) ni de los músicos.

del libro "Ensayos" publicado por Seix Barral junto a las obras completas de Ernesto Sábato, extraído del suplemento Cultura de "La Nación", 7 de Julio de 1996


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