Essa semana precisei remexer alguns guardados atrás de uma conta antiga e então me deparei com ele: meu verdadeiro primeiro livro. E com ele resgatei lembranças de muitos anos atrás quando resolvi reviver a geração de poetas marginais, aqueles da década de 70 q distribuíam e vendiam seus livros e poemas mimeografados e censurados pela ditadura em bares da noite.
Sim, eu tb tive um livro de poemas mimeografado, numa homenagem à "maldita" geração do mimeógrafo. Era final da década de 80, início de 90. Era muito artesanal, eu usava o pseudônimo "Teiniaguá" (lenda gaúcha, importada da Espanha, que encontrei no O Tempo e o Vento do Érico Veríssimo quando o li aos 17), o título era em francês Femelle Poème e a capa trazia a ilustração de uma deusa guerreira de asas (desenhada por Jayme Cortez). Não reparem porque era tudo muito artesanal, mas cheio de sonhos. E a verve estava ali forte, desbocada, jovem, modéstia à parte:
Destaco dois poemas dele:
O primeiro é uma homenagem a Torquato Neto:
"anjos tortos
perdidos
andam pelas ruas
sonâmbulos
zumbis
a imensa máquina negra da noite
de luz frágil estrela de brilho fugidio
esconde na esquina o sorriso
doente a saia curta o sexo
a fome a miséria
poetas tortos
perdidos
delirantes na luz de neon
que ofusca a alma
embriaga a cabeça
e pede bis"
o segundo tb pode ser pensado dentro da linha da poesia engajada e dialoga com o rock dos Titãs:
"JESUS NÃO TEM DENTES NO PAÍS DOS BANGUELAS
desdentados antropófagos
num ritual coletivo
de posse e criação
do Outro
de Si"
Realmente, os grandes sonhos são gerados ao vinte e poucos anos. Nessa época, a fome de viver era grande.. a vida como uma fruta no ponto:
"Às vezes dá vontade de agarrar a vida
com uma, duas, dez mãos
e levar à boca, e trincar nos dentes
como uma fruta no ponto." (da Roseana Murray, q escreve para crianças, mas é saboreada pelos grandes)
Para arrematar, esse post acabou me levando a outras lembranças e aí eu percebi que, ainda menina, eu, talvez, já intuísse muito da minha vida, ou q desde pequena eu já soubesse aonde queria chegar. Começo a me recordar de que várias músicas que me marcaram quando criança costumam voltar à minha memória em determinadas fases da minha vida. "Sangue Latino" é uma delas. Uma outra da qual, na época do livro comentado/resgatado acima, eu costumava me lembrar e cantarolar, mesmo desafinadamente, era "20 e poucos anos" do Fábio Júnior. Eu sei, eu sei, Fábio Júnior é brega, mas essa ficou. Abaixo um link com o videoclipe no Fantástico de 1979:
http://www.youtube.com/watch?v=kau2V2LMYLM
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